Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

A GESTAÇÃO

Como é a gestação de um bebê com acrania e anencefalia?


A acrania a anencefalia são facilmente identificadas em um exame de ultrassom, por volta das 12 semanas de gestação. Devido à grave condição do bebê, que em grande parte dos casos vem a falecer em poucos minutos ou horas após o parto, as gestantes são frequentemente aconselhadas ou orientadas a optar pelo aborto provocado da gestação.

No Brasil, desde abril de 2012 o aborto de bebês anencéfalos foi descriminalizado e pode ser feito com assistência médica na rede de saúde. Ainda assim, cabe à mulher a decisão de prosseguir ou não com a gestação. Cabe também à equipe médica que a acompanha respeitar sua decisão, pois a mãe e seu bebê com anencefalia têm os mesmos direitos à assistência como em qualquer outra gestação.

No entanto, a gravidez também pode ser levada adiante normalmente, sem prejuízos à saúde da mãe. Em algumas gestações (cerca de 30% delas), pode haver aumento de líquido amniótico dentro do útero, uma condição chamada de polidrâmnio, e que pode ocorrer em diferentes graus, desde um aumento leve, moderado até muito acentuado. Essa ocorrência pode causar bastante desconforto à gestante nas últimas semanas de gestação, e somente em casos mais extremos, especialmente se não houver a devida assistência médica, pode acarretar algum risco à gestante. Porém, a maioria das gestações segue normalmente até o final sem maiores intercorrências.

Ainda assim, o polidrâmnio é uma condição que inspira cuidados e observação na gestante. De acordo com pesquisa realizada em 2006 com 303 gestantes que seguiram espontaneamente com a gravidez de bebê com anencefalia, em 30% dos casos houve polidrâmnio na gestação, e nestes casos, 60% dos bebês nasceram prematuramente. Outras complicações gestacionais foram raramente observadas, e todas as mães puderam dar à luz seus filhos sem as complicações que são frequentemente levantadas como motivos para que a mãe realize um aborto. Estas mães puderam concretizar seu desejo de seguir com a gestação até o seu término natural, respeitando assim o tempo de vida de seu bebê e não interferindo ou contribuindo para sua morte.


Apoio emocional

A condição que inspira mais cuidados na gestação de um bebê com acrania e anencefalia é o estado emocional da mãe, que precisa antes de tudo de apoio, respeito, assistência e ajuda para aceitação do diagnóstico. A mãe e toda a família se veem confrontados com uma situação de morte iminente do bebê, sem saber como conduzir a situação. Obviamente, a maioria das mães não deseja de maneira alguma interromper, jamais pensou em realizar um aborto, ama seu bebê e lamenta profundamente pela sua malformação.

Qualquer que seja sua escolha, continuar a gestação ou interromper, a mulher terá que lidar com um luto doloroso. Primeiramente o próprio diagnóstico traz luto pela perda de tantos sonhos e planos que já existiam para a vida dessa criança após seu nascimento. Há a angústia e o medo de não saber como será conduzida essa situação, conflitos éticos e emocionais. Em seguida haverá a perda desse filho, que independente de seu tempo de vida (quer seja de algumas semanas ou de alguns meses), já era um filho muito amado.

Muitas mães optam pela continuidade da gestação por entender que esse tempo é precioso para estar com seu bebê, para lhe dar todas as oportunidades de vida e fortalecer seus vínculos de afeto. Durante a gestação, esse bebê ainda está vivo e os meses que ainda estão à frente até o final da gravidez, apesar de serem breves, são um tempo de vida para essa criança. A dor pela perda será inevitável, mas será possível vivenciar esse amor, conhecer o bebê, criar lembranças de sua vida e se despedir, reconhecendo esse bebê como um filho, dando-lhe um nome e um lugar na família. Será possível ainda assimilar esse diagnóstico e elaborar melhor esse processo de luto que se aproxima.

É importante mencionar que não conhecemos relatos de mães que tenham optado por continuar espontaneamente com a gestação de seu bebê com anencefalia e que tenham se arrependido de sua decisão. Especialmente mães que tenham recebido apoio emocional e buscado construir vínculos afetivos com seu filho relatam que foi extremamente importante ter tomado essa decisão e vivenciado a gestação e o amor por seu bebê.

Por outro lado, é comum mulheres que optaram por interromper a gestação virem após algum tempo expressar sentimento de profunda culpa e tristeza por sua decisão, e vivenciarem depressão e luto prolongados, que não imaginaram que viriam a enfrentar, pois esperavam que a antecipação de parto seria um gesto para abreviar e amenizar seu sofrimento. Muitas mulheres nestas condições lamentam não terem recebido mais informação, não terem se permitido esperar e tentar vivenciar essa gestação por mais tempo, e em muitos casos expressam ainda que receberam forte pressão para realização do aborto sob alegação de que correriam risco de vida. Porém, ao se depararem com tantos relatos de mulheres que também ouviram que viriam a correr riscos, mas que seguiram até o final da gestação e não tiveram complicações de saúde, surge dúvida e angústia de que talvez fosse possível ter continuado com a gravidez.

Existem mulheres que tomaram a decisão de interromper e afirmam não ter se arrependido, e também existem mulheres que relatam terem seguido a gestação por obrigação, pressão social ou religiosa, e que enfrentaram grande sofrimento psicológico por isso, que acreditam que interromper a gestação poderia ter sido menos traumático. Mas nossa experiência com diversas mães que seguem espontaneamente com a gestação tem nos mostrado o quanto essa vivência da gestação, a aceitação do diagnóstico e a despedida desse filho são gestos emocionalmente saudáveis, importantes e significativos para seguir em frente.

É certo que a dor e o luto existem e são grandes após o falecimento desse filho amado, seja qual for a decisão da mãe após esse diagnóstico. Nenhuma decisão irá mudar o fato de que essa criança existiu e que sua perda foi profundamente sentida e lamentada. Por isso é extremamente importante que haja informação e apoio antes de qualquer decisão, e também depois.


A gestante corre risco de vida ou risco de perder o útero se não interromper a gestação?

Quando a mãe não tem nenhum outro problema de saúde, não há como saber, no início da gestação, quando é dado o diagnóstico da anencefalia e o aborto é indicado, se a gestante terá complicações ou não. 

Em cerca de 30% dos casos, ocorre o polidrâmnio, aumento de líquido amniótico ao longo da gravidez, uma condição que inspira observação e cuidado, podendo levar ao parto prematuro. Em casos mais extremos, porém, o polidrâmnio pode trazer complicações, como descolamento de placenta, hemorragia e um parto de risco, principalmente se a gestante não receber a devida assistência pré-natal.

Mas mesmo quando ocorre o aumento de líquido, muitas mães conseguem chegar ao final da gestação, ou até próximo ao final do terceiro trimestre, e conhecer seu bebê, se despedir e ter uma recuperação pós-parto normal.

Nestes casos, há recomendação de observação e repouso para maior conforto da mãe e bebê. Pode ser necessário um acompanhamento pré-natal mais intenso, a realização de punções para retirar o excesso do líquido amniótico que proporcionam alívio e possibilitam a manutenção da gestação por mais tempo, e diante de uma situação de maior risco ou de sofrimento fetal, o médico pode decidir, juntamente com a gestante, a necessidade de uma intervenção, como o agendamento do parto por cesariana ou indução do parto normal. Se o bebê for prematuro, receberá assistência e cuidados especiais adequados ao seu quadro clínico durante o tempo em que sobreviver.

No caso da anencefalia, observamos que quando a mãe tem aumento de líquido amniótico muito acentuado, a criança pode ter um grau de anencefalia mais grave e vir a falecer ainda durante o parto ou logo após. Mas ainda assim se viver entre alguns minutos ou horas, receberá cuidados paliativos possíveis, poderá ser conhecida e acalentada pelos pais e ter sua dignidade humana respeitada por meio do sepultamento. 

Esses gestos certamente trazem dor imensurável aos pais e a toda a família. Mas com o passar do tempo, também trazem conforto, com a constatação de que foram dadas todas as chances de viver a esse filho, de que tudo que era possível foi feito, até ocorrer a sua morte natural, e quando ela ocorreu encerraram esse ciclo da vida com rituais importantes dentro dos vínculos familiares. 

É extramente doloroso ter que sepultar um filho recém-nascido que morreu, provavelmente uma das maiores dores que uma mulher pode vir a enfrentar na vida. Mas é igualmente doloroso ter um filho morto e não sepultado - como ocorre no caso do aborto.

É importante observar ainda que o polidrâmnio não ocorre somente em caso de anencefalia, mas pode ter diversos motivos, mesmo em gestações de bebês saudáveis. Diabetes gestacional, gravidez de múltiplos, anemia no bebê e outras malformações fetais, como obstrução do esôfago e fenda labiopalatina também causam polidrâmnio sem que, nestes casos, a mãe tenha necessidade de interromper a gestação ou seja aconselhada a esse procedimento (Leia no site Baby Center artigo sobre Polidrâmnio clicando aqui).


Quando a gestação de bebê anencéfalo oferece riscos?

Qualquer gestação inspira cuidados, pois ocorrem diversas alterações físicas e emocionais na mulher e justamente por esse motivo todas as gestantes devem ser assistidas e fazer o acompanhamento pré-natal. A indicação do aborto em caso de anencefalia se deve principalmente pela baixa expectativa de vida da criança. Para muitos profissionais não vale a pena a mulher passar pelo processo de uma gestação, se expondo aos riscos e ao desgaste que esse processo traz, sendo que seu filho tem uma condição terminal e virá a falecer logo após o parto.

Nos casos muito acentuados de polidrâmnio, porém, há sim um risco maior de descolamento da placenta durante o trabalho de parto normal e de hemorragia pós-parto, pois o útero pode ter dificuldade de voltar ao tamanho normal.

Nestes casos, é necessário um acompanhamento especial e o médico decidirá junto com a gestante as melhores possibilidades para a vida da mãe e do bebê. O médico pode recomendar desde repouso, acompanhamento semanal, punções de alívio e até mesmo agendar uma cesariana.

As complicações da gestação se tornam mais preocupantes quando há falta de assistência adequada para a gestante durante o pré-natal. Em muitos casos, a gestante não encontra um médico que aceite fazer seu pré-natal, precisa consultar diversos profissionais pois não se sente acolhida e respeitada em sua decisão de continuar a gravidez, e ao se dirigir a um pronto-socorro com algum sintoma anormal não recebe a devida atenção, sendo que pode já estar em trabalho de parto prematuro.

Por esse motivo, é importante que a gestante que decide seguir com a gestação adiante esteja bem assistida por um médico que respeite sua decisão e também esteja atento aos possíveis riscos que podem ocorrer ao longo de sua gravidez. Sem pressioná-la a abortar, mas oferecendo a ela segurança, apoio e informações atentas sobre sua saúde e a de seu bebê.

Referências:


Jaquier, Monika. Relatório sobre o nascimento e a vida de bebês com anencefalia. 04.09.2012. Acessado em 17.04.2013. Disponível em <http://www.anencephalie-info.org/p/relatorio.php>.

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