Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Meu anjo Gael!!!!

 

Por vezes fiquei pensando como seria escrever o meu relato depois de passar noites em claro lendo e relendo tantas histórias de amor, de como seria a dor de relatar tudo. Hoje escrevo com dor sim, mas com um amor maior do que qualquer outro sentimento, um amor de uma mãe órfã do seu primeiro filho, mas com o coração e a cabeça tranquilos por ter feito a vontade de Deus.

Desde que casamos em 2010, nunca colocamos uma data para ter um filho. Resolvemos que esperaríamos um pouco e só. Após 2 anos de casados, começamos a pensar no assunto, mas a perda inesperada do emprego do Flávio e grandes perdas de entes queridos fizeram nossos planos serem adiados.

Final de 2013, após a vida estar estruturada novamente, decidimos tentar. Fomos ao médico, fizemos exames, tomei ácido fólico por meses, emagreci um pouco, até que no dia 17/06/14, no meio do jogo do Brasil, veio a notícia, estava grávida!!! Uma explosão de sentimentos nunca experimentados, chorava, ria, eu mal podia acreditar. No exato momento eu já disse que era um menino, era uma certeza absurda! No outro dia já fomos para casa dos meus pais contar a novidade! Aguardei o primeiro ultrassom para contar para o restante da família e os amigos. Apesar de toda a felicidade, eu tinha uma certa cautela com tudo, era como se algo me dissesse para manter os pés no chão.

Seguia como o pré-natal normalmente, até que fui fazer o ultrassom de translucência nucal, que marquei no limite da data para poder tentar ver o sexo. No dia 19/08/14 saí mais cedo do trabalho, fui buscar meu marido, sempre presente em todas as consultas e exames. e fomos para a clínica.

Eu super falante durante o exame, perguntando se estava tudo bem, encantada com tantas mexidas que meu anjo dava dentro de mim, e a médica num silêncio absurdo e remexendo na minha barriga sem parar. Até o momento que ela disse: “Você me perguntou se está tudo bem, mas não está.” Nesse momento eu imaginei que ela falaria sobre Down, que era esse o “problema” do meu bebê, mas o que ela disse foi que meu bebê tinha acrania, que seu crânio não tinha se formado e não formaria mais, que ele não ia sobreviver. A partir desse momento parecia que meu mundo tinha acabado. Eu chorava e o Flávio fazia algumas perguntas que eu não escutava. Eu só me lembro dela falar de uma clínica em São Paulo que poderia fazer a interrupção da gravidez, mas que era melhor eu falar com meu médico. Só perguntei se era realmente um menino e ela disse que era 80% de chance que sim. Ele já tinha nome, Gael. Pediu pra eu sair da sala e aguardar o laudo.

Saí da clínica em desespero e liguei para meu médico, que não estava e só me atenderia no outro dia. Eu precisava falar com alguém. Liguei pra minha irmã e minha mãe. No outro dia fui ao médico com minha mãe e meu marido e a primeira coisa que o médico disse foi em interromper a gravidez, que era o mais correto a fazer. No mesmo instante eu disse não, mas ele me pediu pra pensar e qualquer coisa ligar para ele. 

Passei mais uma noite em claro quando encontrei o blog da Mariana, filha do Rodrigo e da Lucia. Enviei um e-mail e o Rodrigo me respondeu e me adicionou ao grupo. Foi uma das melhores coisas que me aconteceu.

Os dias foram passando, segui com o pré-natal, meu médico entendeu minha decisão e me tratou normalmente. Perguntei se ele queria continuar me atendendo e ele disse que estaria comigo até o fim, o que foi um alívio para mim.

Pessoas se afastaram, de outras eu me afastei por perceber que ficavam desconfortáveis com nossa presença (eu nunca escondi a situação), outros se aproximaram. Preconceitos, discriminação, questionamentos, esses se fizeram presentes. Médicos me perguntando por que tinha ido fazer ultrassom, olhavam com cara de pena, perguntavam se eu realmente sabia o significado do diagnóstico. Pessoas insensíveis e incapazes de entender o amor na sua forma mais plena e pura, sem rótulos, porque pra nós nosso Gael era perfeito, porque ele é nosso filho pra sempre.

No dia 01/10/14, numa consulta, após relatar algumas situações, meu médico resolveu me afastar do trabalho e tenho que dizer que isso fez muito bem pra nós, pois a partir daquele momento eu convivia com quem eu queria e me entendia. Tive o tempo perfeito, só eu e meu filho, de sentir ele mexer, falar com ele, cantar, tudo isso fez os meus melhores dias, pude senti-lo na plenitude, momentos só meu e dele e que nunca vou esquecer.

Com 21 semanas foi detectada a anencefalia (involução da acrania, sabíamos que seria assim) e com 25 semanas o polidrâmnio.

Fiz um chá de bebê beneficente lindo em nome do Gael, com a presença e ajuda de muitas pessoas. O ultrassom 3D foi lindo, ver seu rostinho e corpinho foi mais que emocionante. Saí com minha mãe e irmã e compramos suas roupinhas (não muitas) e ganhamos muitas coisas também. Fiz sua malinha. Ou seja, fizemos tudo da melhor maneira possível, mas com os pés no chão. Nossa sessão de fotos estava marcada, mas não deu tempo de fazer. Somente o quartinho que optamos por não fazer.

Nessa altura já estava muito cansada, com dores, no dia 24/11/14 fui ao PS e o médico de plantão disse que estava tudo bem, que as dores eram por conta do líquido aumentado. Passei a semana toda com dor e na sexta procurei o meu médico, fiz exames e fiquei no hospital porque meu rim direito estava dilatado, causando cólicas, devido ao líquido também.

No domingo, dia 30/11/14, já acordei com muitas dores e fui para o hospital por volta das 14h. Chegando lá já não conseguia andar com dores e perguntei quem era o médico de plantão - por Deus era o meu médico e foi um grande alívio. Quando ele me viu, eu disse que achava que era o rim, ele colocou a mão na minha barriga e disse? “você está em trabalho de parto”. Não contive as lágrimas. Ele me examinou e eu estava com 4cm de dilatação e sem o tampão. Fui internada e todas as manobras para retardar o TP foram feitas. Fiquei na cama de ponta cabeça sem poder levantar pra nada, absolutamente nada, com uma medicação caríssima (todos enfatizavam isso no hospital) e que supostamente funciona para inibir o TP. Demoraria 48h para “correr na veia”, mas comigo não “correu” nem 24h.

Por volta das 17h30min do dia 01/12/14 as dores voltaram com força total e meu médico foi chamado. Naquele momento eu percebi que não daria mais, a minha vontade de fazer força era muito grande. Meu médico chegou rápido e o Flávio também (minha mãe tinha passado o dia comigo). Eu já estava com dilatação total e nada mais poderia ser feito. Uma cesárea já não tinha como ser feita ,como eram os planos do médico no início, apesar do meu sonho ser o parto normal. O Gael ia nascer! Meu médico, num momento muito humano e de extrema sensibilidade, sentou ao meu lado e me explicou a situação, dizendo que sabíamos que com o tempo normal de gestação já seria muito difícil e no momento que estávamos seria ainda mais difícil, me perguntou o que eu queria pedir naquele momento. Eu pedi para ele fazer de tudo para tirar meu filho vivo, e ele fez tudo que pôde!

Entrei na sala de parto às 19h03min (lembro do relógio grande que tinha na parede) e às 19h23min o Gael nasceu, já como anjo, ele não conseguiu respirar fora de mim. Imediatamente levaram ele pra mim, já com a cabecinha coberta, pois foi um pedido meu. Lindo meu anjo, perfeito, eu não tinha forças, mas me lembro de tudo, na sala de recuperação me levaram ele novamente, ai pude pegá-lo, embalá-lo nos meus braços, abraçar, beijar e dizer o quanto eu o amo!

Não tenho o que falar da equipe médica, foram muito bons comigo, eu tinha muito medo, mas deu tudo certo. Meu médico em particular foi e continua sendo incrível comigo.

Pude acompanhar seu sepultamento no outro dia pela manhã em meio a muitas lágrimas e pessoas queridas. Não quis velório. Flávio e minha mãe o viram ainda no hospital, meu pai, minhas irmãs e cunhados puderam vê-lo na funerária, achei que era o suficiente. Eu preferi não guardar algumas imagens, então não quis vê-lo no caixãozinho, como também não quis ver sua cabecinha. Guardei sua imagem doce, seu rostinho perfeito embalado nos meus braços!

Só tenho a agradecer a Deus que me deu forças, me deu todo o necessário para cumprir minha missão. Agradeço ao grupo, todas as mamães de anjo que sempre me animaram e acolheram carinhosamente, onde eu senti que não estava sozinha, que não existe o “por que eu?”, pois são centenas de outras famílias que passaram ou passam o mesmo. A toda minha família, toda mesmo! Aos amigos que eu sabia que nunca nos deixariam e principalmente aqueles que se aproximaram ainda mais, a todas as pessoas que eu nem conheço (mas espero um dia conhecer) que estavam o tempo todo em oração por nós e também a minha psicóloga que me acompanhou e continua me acompanhando.

Não condeno ninguém que tenha optado por interromper a gravidez, mas se eu puder dar um conselho pra alguém que passa por isso: Tudo vale a pena pra sentir, independentemente do tempo, o maior amor do mundo que é ser Mãe de um Anjo!
Hoje sinto falta de suas mexidas, das nossas conversas, de nossos momentos mais lindos, sinto falta também de tudo que não pude viver, os choros, os sorrisos, as mamadas e tudo aquilo que uma mãe vive! Um filho é único e nunca será substituído.

Muitos me dizem que fui guerreira, mas eu digo que não, não existe guerreiro sem seu mestre, o meu foi Jesus, só fui seu instrumento! O milagre aconteceu, transformou e continua transformando nossas vidas e a vida de muita gente e se chama Gael!!! Saudade eterna!

Tatiane Costa Ottani
Piracicaba, São Paulo

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