Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Minha estrelinha, ISABEL SOUZA BRAGA


No dia 4 de julho de 2013, às 17h30, recebi o grande resultado: eu estava grávida. Eu dei um baita abraço no meu esposo e até chorei, o coração bateu forte, a sensação foi incrível, era uma emoção jamais sentida antes e o melhor presente de aniversário do mundo, pois naquele mês era meu aniversário. Com o resultado do exame, na semana seguinte comecei meu pré-natal. Eu já estava com 8 semanas de gestação. A ficha ainda não tinha caído, mas o amor por aquela criança não cabia no peito...

No mês seguinte, dia 22 de agosto, fui fazer meu primeiro ultrassom. O médico não dizia uma só palavra, e como era pelo SUS só iria receber o laudo em 7 dias. Até que no dia marcado recebi o ultrassom. Eu estava sozinha e percebi que algo estava errado. A ultra dizia que o bebê tinha uma "má-formação no sistema nervoso central".

Chegando em casa, liguei para meu esposo que estava trabalhando e disse a ele que havia alguma coisa errada com nosso bebê. Depois fui pesquisar e não entendi nada com nada. Eu não tinha consulta marcada para aquele mês, mas fui correndo mostrar ao meu obstetra.

De sorridente, ele ficou sério e balançou a cabeça de forma negativa. Logo tive certeza que realmente havia algo errado. Ele não confirmou nada, disse que podia ser apenas um erro, mas imediatamente me pediu um ultrassom morfológico. 

Na semana seguinte fui fazer o morfológico e infelizmente recebi o triste diagnóstico: anencefalia. A moça que estava fazendo a ultra me explicou um pouco sobre o assunto, mas o tempo todo dizia que eu teria que interromper a gravidez, como se essa fosse a única saída. Aguentei firme até sair daquela clínica, porque lá, ao contrário de mim, havia muitas mamães felizes. Saindo de lá, desabei no choro. Minha mãe me prendeu a ela e juntas chorávamos. Eu pedi para que ela ligasse para meu esposo e pedisse que ele não fosse trabalhar. Todas as pessoas ao nosso redor olhavam sem entender nada. Chegando em casa, olhei para o meu esposo e corri pra cama. Ele logo correu ao meu encontro e me abraçou. Eu em meio a lágrimas, disse: "vou ter que tirar nosso bebê, amor". Imediatamente caímos no choro, ficamos sem chão. Todos nós estávamos sofrendo. Por que, meu Deus? Tirar aquele bebezinho? Nunca tinha sentido uma dor tão forte. Meu esposo ficou doente e eu chorava dia e noite.

Voltei ao meu obstetra, ele também ficou triste e disse que estava torcendo para que não fosse nada grave. Ele iria continuar me acompanhando, mas iria me encaminhar para um hospital que recebia grávidas de alto risco. Ele me disse que lá iriamos conversar com um grupo de profissionais e eu e minha família é que iríamos escolher ir adiante ou interromper.

Minha mãe e meu esposo foram comigo para o novo hospital. Lá conheci três médicos que nos tiraram todas as dúvidas. Minha mãe disse a eles que eu iria interromper, mas eu continuei calada, sem confirmar nada. Eles disseram que eu teria que conseguir uma autorização judicial. Me examinaram, mas não conseguiram escutar o coração do bebê, então me pediram para voltar no dia seguinte.

De manhã bem cedo voltei, fiz várias ultrassonografias e também foi feito o laudo médico. Escutei aquele coraçãozinho batendo perfeitamente e também soube naquele dia que estava esperando uma mocinha. Eu fiquei super feliz com a notícia e o mais engraçado era que meu esposo me dizia sempre com toda certeza do mundo que era uma menina. Eu achava que era coisa da cabeça dele, pois ele queria muito uma menininha (risos).

Meu esposo tentou falar com um advogado, mas não conseguiu, então eu disse a ele que não precisava mais, pois eu tinha decidido ir adiante com a gestação. Ele ficou preocupado comigo, mas me apoiou, junto com minha mãe e meus irmãos. Na próxima consulta o obstetra me perguntou o que eu tinha decidido, eu então perguntei se corria algum risco indo até o fim. Ele disse que seria uma gestação como todas as outras e me apoiou em continuar.

Em meio a tudo isso vi uma linda reportagem aqui em Fortaleza contando a história da Joana, do Marcelo e da pequena Vitória de Cristo. Ela tinha sido diagnosticada com anencefalia e ainda viveu 2 anos e meio. Ter conhecido a história deles me deu uma esperança enorme. Mandei um e-mail para ela, que me respondeu com muito carinho e ainda me adicionou ao Grupo Acrania e Anencefalia. Fui muito acolhida por pessoas que nunca vi na vida, pessoas que sabiam o que eu estava sentindo, pais que passaram ou estavam passando por tudo aquilo também. Eu e meu esposo ficamos maravilhados com o apoio de todos. Todos os dias eu pesquisava sobre o assunto, via fotos de bebês com anencefalia e vários depoimentos.

Eu me culpava demais e questionava muito a Deus... Com o tempo fomos assimilando a ideia e cada chute, cada consulta, cada bater de coração me dava forças para prosseguir. Eu e meu marido vivíamos um dia de cada vez, curtíamos cada segundo, amávamos além de qualquer coisa e assim os meses foram passando. Não fizemos enxoval, mas Isabel ganhou muitas coisas lindas. Gestação de risco? Nem um pouco, eu tinha uma saúde de ferro, minha pressão era ótima e a Isabel era muito boazinha (risos).

Ela mexia sem parar, por muitas vezes não me deixando dormir, mas eu amava. Dia 17 de fevereiro de 2014 foi minha última consulta, eu já estava com 39 semanas e 4 dias. Meu médico me deu um encaminhamento para que fosse internada, mas não tive muita sorte, o hospital estava lotado e apesar de ser uma bebê com anencefalia, eu e a Isabel estávamos super bem. Então resolvi esperar a hora em casa mesmo. Era a reta final e eu estava tranquila, eu sentia muita dor nas costas, pois era magrinha e só tinha barriga.

No dia 2 de março, minha mãe e minha tia me levaram quase que a força para a emergência do hospital. Eu estava com 41 semanas e 3 dias e apenas sentia dores nas costas. Veio um médico que eu não conhecia fazer o exame de toque e ele simplesmente com seu coração duro me perguntou se eu sabia do diagnóstico do bebê e por que não tinha interrompido a gravidez, vocês acreditam nisso?

Eu apenas ignorei o que ele tinha perguntado. Na hora do exame, a Isabel não parou quieta e uma outra médica que estava lá sorria bastante e ficava besta com os mexidos da Isabel. Aí o médico bruto fez o exame de toque e o descolamento de membranas para me ajudar a entrar em trabalho de parto. Então disseram que se eu não sentisse nada em 2 dias, voltasse ao hospital porque não poderia esperar mais. Dois dias e nada. Até que no dia 05/03/14 voltei ao hospital bem cedo. Chegando lá, o hospital estava fechado pois não tinha mais vaga pra ninguém. Conversa vai, conversa vem, até que conseguiram um cantinho para nós. Eu estava com 41 semanas e 6 dias, meu parto seria normal e induzido.

Eu estava tranquila, sem medo e esperei com calma e paciência a grande hora chegar. Às 13 horas minha bolsa rompeu e passei quase 3 horas derramando líquido. Depois das 15 horas da tarde comecei a sentir as contrações. Na troca de plantão, a médica da noite veio me examinar, escutou o coraçãozinho da Isabel e fez o exame de toque: ela já estava saindo. Fui para a sala de cirurgia às 20 horas e exatamente às 20h17min ela nasceu, pesando 2.970kg. Eu só a vi de costas, estava muito cansada e desmaiei lá mesmo, enquanto os médicos a levaram rapidamente e eu não consegui mais vê-la.

Fui para um lado e ela foi para outro. Eu não parava de pensar na minha pequena Isabel, como ela estava, se estava bem, se estava viva. Infelizmente nenhum médico veio me ver e dar alguma notícia.

Pela manhã, a enfermeira que estava com ela veio me dar a triste notícia de que minha Isabel havia falecido às 5h40min daquela manhã. Eu não tive reação alguma. Tudo que eu queria era ver meu esposo e minha mãe. Quando minha mãe chegou, me disse que a Isabel tinha nascido como se tivesse duas bocas. A assistente social quase me mostrou a foto, mas minha mãe não deixou e ela foi embora. Meu esposo estava ajeitando tudo, certidão de nascimento, certidão de óbito e cuidando do velório e enterro.

Eu recebi alta naquele mesmo dia e me disseram que a Isabel já estava indo ser enterrada. Meu Deus! A pior coisa do mundo foi sair daquele hospital sem a minha filha nos braços. Cheguei em casa muito mal, eu não tinha visto minha filha e nem feito nada do que eu planejei a gestação toda. Eu só fui chorar de verdade dois dias depois, que foi quando a ficha caiu.

A minha recuperação física foi rápida, mas a emocional não... A minha intuição de mãe dizia que alguma coisa estava errada. Então comecei a perguntar a minha mãe e ao meu esposo sobre a Isabel, como ela era, até que minha mãe desabafou, me falou que a Isabel havia nascido com mais más-formações e o rostinho dela não tinha se formado, e disse também que o enterro dela foi no dia 7 de março e não no dia 6 como eu achava. Ou seja, minha família e os médicos acharam melhor eu não saber de nada. Eu fiquei muito chateada e triste, porque eu era a mãe, eles não tinham o direito de esconder isso de mim. Foi uma escolha bem infeliz de todos.

Passados alguns dias, descobri também que a esposa de um primo meu tinha tirado uma foto dela. Então eu pedi para ela me mandar, mas ela não mandou. Perguntei ao meu primo e ele também não quis mostrar. Mais uma vez fiquei chateada e triste, todo mundo tinha visto a foto e eu, que era a mãe, não podia ver. Até que minha irmã me ajudou e conseguiu a foto. Perguntou se eu queria mesmo ver, e eu disse que sim, claro!

Até que de tanto perturbar a todos, consegui ver a foto da minha filha. Realmente a má-formação foi muito agressiva com ela. Eu não me assustei ao ver a foto, só fiquei triste por não ter tido um rosto para ver. Também não entendi porque nas ultrassonografias não foi mostrada a má-formação facial. O meu amor não mudou em nada, pelo contrário, fez foi aumentar ainda mais. Deus me fez ver de forma diferente, era a minha princesa, tão inocente e tão frágil. Vendo a foto, percebi que foi melhor assim, da forma que ela nasceu, ela sofreria e todos nós também.

Eu dei a vida àquela menininha lindinha, permiti que ela vivesse o tempinho dela, e eu a libertei. Minha Isabel, apesar de tudo, foi uma guerreira, pois viveu por longas 9 horas e 23 minutos.

Hoje eu estou em paz e já não culpo mais ninguém. Deus sabe de todas as coisas e talvez tenha sido melhor assim. Na bíblia fala que nada acontece que não seja da permissão de Deus e eu me apeguei bastante nisso.

Eu sei que não vivi a emoção de pegar minha filha no colo, abraçar e beijar, mas sem sombra de dúvidas vivi momentos mágicos com ela aqui dentro de meu ventre. Foi um aprendizado e tanto, aprendi a amar além das imperfeições e me sinto super honrada por ela ter me escolhido como sua mãe. Não me arrependo em momento algum de ter seguido a gestação até o fim. Minha princesinha Isabel foi a página mais linda que Deus escreveu na minha vida. Eu cuidei dela e a protegi por nove meses e agora é ela quem cuida de mim.

A saudade é enorme e o amor é sem tamanho... Sempre será a primeira e amada filha para todo sempre. Não se passa um só dia em que eu não me lembre dela. Estou bem, tem dias que são mais tristes do que os outros, mas  sei que isso faz parte. Essa é minha história de amor sem fim.

E pretendo, se Deus quiser, dar irmãozinhos para a Isabel, para que lá de cima ela cuide deles também, afinal, ela será a irmã mais velha.


"SÓ ENQUANTO EU RESPIRAR, VOU TE AMAR E ME LEMBRAR DE VOCÊ...

Minha estrelinha,

ISABEL SOUZA BRAGA"

Mirelle Souza,
Fortaleza, CE
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