Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A vida de nosso Davi: uma caminhada de amor e fé!


A história do meu querido filho Davi começou a ser escrita há algum tempo, quando conheci meu esposo em 2005: nos apaixonamos à primeira vista, logo começamos a namorar, noivamos e, em setembro de 2007, nos casamos. Éramos bastante jovens e logo de início decidimos que iríamos esperar um pouco para planejar a chegada de um filho, afinal ainda tínhamos uma casa pra construir, faculdade por acabar e alguns projetos por realizar... 

Um dos nossos grandes sonhos, além de sermos pais, era fazer uma viagem de lua de mel à França e, depois de 5 anos casados, conseguimos dar esse presente um ao outro. Viajamos em março de 2013. A gente sempre brincava que durante a viagem ia “encomendar” o herdeiro, e sem imaginar que isso se tornaria realidade, aconteceu.

Comecei a desconfiar da gravidez já no mês seguinte, mas só confirmei mesmo no comecinho de maio. Foi uma alegria tremenda: família, amigos, todos radiantes! Alguns dias depois do dia das mães pude escutar seu coraçãozinho pela primeira vez e vê-lo, tão pequenino, frágil... Impossível descrever a emoção! Nesse primeiro ultrassom tudo tinha corrido muito bem, mas meu coração estava meio inquieto, havia momentos em que eu desconfiava de toda essa felicidade, um sexto sentido materno, eu sempre orava pedindo a Deus que nada de mal acontecesse...

Continuamos o pré-natal e logo chegou o momento de fazer a ultrassonografia morfológica. Marquei para um domingo bem cedinho, dia 16 de junho, 3 dias depois do meu aniversário. Eu estava muito ansiosa, queria saber se estava tudo bem e quem sabe até descobrir o sexo do bebê. Já tínhamos até escolhido os nomes caso fosse menina ou menino! 

Logo o médico entrou, sorridente, falante e começou a me examinar; depois do início seu semblante foi mudando, ele parecia atordoado, falando que não estava conseguindo visualizar bem o meu bebê e aí meu coração foi apertando, apertando, e eu já rezando para que o meu pressentimento não se confirmasse. Demorou bastante até que ele dissesse: “Seu bebê tem acrania, uma má-formação que evolui para anencefalia, já ouviu falar disso?” e eu não tinha palavras, só acenei com a cabeça.

Eu já tinha ouvido falar de anencefalia e, na minha concepção, até aquele momento, era um diagnóstico realmente incompatível com a vida, pois nunca tinha ido atrás de mais informações, de casos de crianças que sobreviveram, etc. O médico deu algumas explicações e começou a se dirigir ao meu marido, porque eu emudeci, só ouvia e chorava; meu marido não conhecia o diagnóstico e com mais calma conversava com o doutor; o médico, por sua vez, queria o número de telefone da minha médica, pois aconselhava a interrupção da gestação o mais rápido possível. Nós não tínhamos o número pessoal dela, então pegamos o resultado do ultrassom e saímos dali o mais rápido que pudemos, confusos, com milhares de questões na cabeça; nem soubemos o sexo do bebê. 

Liguei pra minha mãe contando o que tinha acontecido e ela procurou me acalmar, falando que podia ser um engano. Não quis ir pra casa direto, como todos os domingos vamos à missa, partimos de lá direto pra uma igreja. Naquela celebração Deus falava comigo a todo momento, me sentia muito próxima d’Ele, minhas lágrimas rolavam como se quisessem me lavar da dor que eu sentia em ter recebido a notícia de que aquele filho tão esperado não ficaria muito tempo conosco.

Pesquisei um pouco na internet, mas algumas imagens me chocaram profundamente. A única história que me incentivava a acreditar no milagre da vida foi a da Joana e sua linda Vitória de Cristo, que sobrevivera por mais de dois anos fora do útero. Um exemplo de amor e confiança em Deus!

Conversamos muito meu esposo e eu, e logo tomamos a decisão de que continuaríamos a esperar o nosso filho até o momento que Deus quisesse. Nesse momento meu marido me passou muita força e determinação, seu apoio foi imprescindível.

Na segunda de manhã tentei falar com a minha GO, mas ela não havia chegado, então fui trabalhar e acabei não conseguindo parar e ligar novamente. Fui ao consultório no outro dia e minha mãe foi comigo, meu marido não pôde ir. A doutora me deu mais detalhes do diagnóstico e falou de tudo o que poderia acontecer durante a gravidez, mas me deixou muito à vontade quanto a decisão de levar adiante a gestação. Ela me pareceu compreensiva e não tentou me persuadir do contrário. Me deu a guia para uma nova ultrassonografia e um encaminhamento para obstetrícia de alto risco.

Esperei um mês para fazer um novo ultrassom, tinha esperança que tivesse sido um engano e, ao mesmo tempo precisava de um tempo para organizar as ideias em minha mente; meu marido e eu resolvemos só falar do diagnóstico às pessoas mais próximas mesmo, nossos pais, irmãos, amigos chegados e os padres da paróquia em que sempre participamos. Conheço muitas pessoas na minha cidade, trabalho com muita gente, então ficar explicando a cada pessoa que perguntava sobre o bebê que ele tinha uma grave má-formação só me faria lembrar a todo momento disso e eu queria viver com alegria o pouco tempo que tínhamos.

Foi então nesse novo exame, dia 17 de julho de 2013, que descobri que eu gerava um menino. Fiquei extramente feliz, meu marido então, ficou bobo!!! Meu sobrinho e minha cunhada estavam conosco e puderam compartilhar da nossa emoção. Veio também a confirmação da anencefalia, mas eu me sentia forte o bastante para seguir.

Na mesma semana fomos participar de um grupo de oração e o Padre falava em sua homilia sobre o rei Davi. Ele reforçava a coragem que Davi teve de confiar em Deus para enfrentar o gigante Golias; Davi era ainda um menino e não sabia como a luta iria acabar, mas por sua fé sabia que Deus lhe daria a vitória. Também me sentia assim... e meu filho que iria se chamar Vitor se tornou Davi, aquele que é amado, querido, segundo o significado hebraico.

Dali em diante entreguei cada dia das nossas vidas ao Senhor. Comecei a ser acompanhada por outra obstetra que, de início não entendeu muito nossa decisão, mas a vencemos pelo cansaço. E cada passo era uma vitória: ir a uma consulta e saber que o coração do meu filho continuava batendo era a minha vitória; senti-lo mexer, chutar, se revirar em meu ventre era o que me dava forças. Cantava muito pra ele e acredito que ele gostava, pois não parava de se mexer, rsrs, muito bom! Fiz tudo o que pude pra que nos divertíssemos juntos, mantive a agitação do meu dia-a-dia, mas prestando atenção a cada sinal da vida preciosa do meu bebê.


O tempo passou e chegando à trigésima semana comecei a sentir fortes dores, falta de ar, fui ao PS do hospital onde daria a luz e foi diagnosticado polidrâmnio, aumento do líquido amniótico. Fui afastada do emprego e tentei ficar em repouso, porém a bolsa rompeu na semana seguinte, com 31 semanas de gestação.

Chegar à maternidade foi um capítulo a parte, pois era uma sexta-feira, 8 horas da manhã, eu morando na grande São Paulo e hospital na Zona Sul, quem conhece São Paulo sabe do que eu estou falando: trânsito, trânsito e mais trânsito... eu precisava ir para lá, pois era a maternidade onde a médica que vinha me acompanhando faria o parto. 

Com a ajuda de Deus chegamos lá em pouco tempo, a equipe de plantão me examinou, as médicas conversaram entre si e vieram nos falar. Diante do quadro elas achavam melhor fazer o parto normal induzido, visto que eu já tinha dilatação e o Davi estava em boa posição; quanto ao prognóstico me asseguraram que não haveria diferença. Fiquei bastante confusa, mas acreditei na equipe, o meu sim à vida já tinha sido dito e agora as coisas se encaminhariam conforme os planos de Deus... Minha médica estava a par dos acontecimentos e achava melhor, para a saúde do meu útero, não recorrer à cesariana.

Orei muito, muito, meu marido ficou comigo todo o tempo; a cada contração lá estava ele para me olhar com amor e me transmitir a força que eu precisava. Toda essa experiência me fez ver a pessoa maravilhosa com que me casei. Falava muito com o Davi também, muito apreensiva, mas sempre com palavras de carinho, dizendo que eu o esperava ansiosamente...

Às 18h30 do dia 25 de outubro de 2013, depois de 10 horas e meia de trabalho de parto, o Davi nasceu ! Não ouvimos seu choro e as duas médicas não nos mostraram ele imediatamente, chamaram o meu marido e ele o viu, sem vida... Quando o trouxeram pra mim eu já sabia que iria passar pelo momento mais marcante da minha vida, de conhecer o meu anjo e me despedir dele. Se eu pudesse voltar no tempo teria pedido para abraçá-lo, mas o tempo não volta, isso ainda me dói... Olhei pra ele, pra cada detalhe, seu rosto, boquinha, queixinho, mãozinhas e pezinhos perfeitos; lindo, meu filho. Orei em silêncio por ele e chorei, não desesperadamente, mas num misto de sentimentos... um momento que nunca conseguirei traduzir em palavras.

Acabei tendo alta no dia seguinte (benefício do parto normal) e fizemos o seu sepultamento. Muitos amigos estiveram conosco e nos deram muita força. Muita gente que não sabia o porquê ainda, mas chorava comigo a perda do meu pequeno. 

Foi difícil me despedir, mas eu sentia uma estranha paz; meu coração parecia flutuar naquela tarde ensolarada do dia 26 de outubro, era como se eu estivesse em outra dimensão; na hora em que abracei meu marido imaginei nosso filho sendo recebido pela mãe de Jesus, figura especial a quem tenho grande devoção. Guardo isso em meu coração, essa imagem me consola quando a saudade aperta mais...

Para as mamães que estão vivendo uma gestação com esse duro diagnóstico eu reforço: aproveite cada momento da gestação, seu bebê é um presente em sua vida, e não se abata com a incerteza do futuro. Tenha fé e esperança, pois Deus é bom e nos dá a força que precisamos para encarar tudo isso. 

E para aquelas que já passaram e convivem com a saudade como eu: acredite num céu, aonde um dia você também chegará e terá a eternidade para estar com o seu anjo! 

Davi, a mamãe e o papai te amam para sempre!

Você é a estrela que sempre brilhará mais forte ao olharmos para o céu!!!!!!!!


Josiane Milanez
São Paulo, SP
  



2 comentários:

  1. acompanhei essa historia de perto, e aprendi muito com a Josiane e o Cristiano, um exemplo de fá e confiança em Deus.

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