Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Um anjo chamado Júlia Carla da Silva Diniz





Em janeiro de 2013, estava casada há 7 meses e já planejávamos ter um bebê em 2015. Porém como na vida nem sempre as coisas saem como planejamos, a gravidez veio antes do “meu tempo”... Com dois dias de atraso do ciclo não me aguentei, indo trabalhar comprei um teste de farmácia sem avisar ao meu marido e estava lá, duas listras rosas... Não quis acreditar, olhava várias vezes para ver se apagava, mas não... 

Eu estava grávida. Me perguntava: “Nossa, como assim? Só tinha ficado um mês sem tomar anticoncepcional, tanta gente tenta anos e anos para engravidar e comigo tão rápido?”. Eu não queria naquele momento, ia retornar com a pílula naquele mês, fiquei 11 anos tomando ininterruptamente, não imaginava que em um mês engravidaria, mas... aconteceu.

Liguei para o meu marido e o avisei, ele também não acreditou, falou que eu estava brincando, que estava zoando com ele. Aí mandei por e-mail a foto do teste. Ele quase surtou, mas deixamos pra conversar em casa. Quando cheguei, não tínhamos nem palavras, ele não sabia se me dava os parabéns, ou se perguntava o que íamos fazer. Ok, aceitamos os planos de Deus para nossa vida, pois acreditava que Ele tinha um propósito em tudo isso.

No outro dia, pra ter um papel comprovando, fiz o teste de laboratório que, é claro, deu positivo. Não queria contar pra ninguém até completar 3 meses, conforme o Pe. Marcelo Rossi sempre pediu. Mas meu marido não se conteve, contou para a família, contou para os amigos e até postou no Facebook. A partir daí, todo aquele sentimento de medo virou uma felicidade. Já curtia cada minuto da gravidez e estávamos na torcida pra vir a nossa menininha, a nossa Júlia, pois eu já tenho um menino e meu marido também tem um.

Sentia muito medo, um medo estranho que não tinha sentido na 1ª gravidez, talvez por ser nova demais. Fiz a ultra com 7 semanas e ouvi o coraçãozinho do meu bebê. Que sensação maravilhosa, indescritível. Fiquei muito feliz que estava tudo bem, até o máximo que era possível avaliar naquele tempo de gestação.

Passei muito mal no início do gravidez, tinha a sensação que estava doente. Meu corpo só pedia cama, eu enjoava de tudo, não podia sentir cheiro de comida, achava que aquilo nunca ia passar, nem conseguia curtir minha gravidez.

Fui a uma consulta de pré-natal e minha médica solicitou o ultrassom que mede a Transluscência Nucal. Como queria muuuuuuuuuuito saber o sexo, fui a um médico especialista em descobrir na TN, meu pai pagou particular só pra poder vermos. No dia 21/05 estávamos na clínica, eu, meu marido, meu pai e minha mãe, numa tensão só, doidos pra vermos meu bebê e descobrirmos o sexo.

Entramos na sala de exame e o médico começou a analisar tudo. Pela medida do bebê, eu estava com 11 semanas, ouvimos o coração (que lindoooo), e foi quando ele começou a mostrar, perninha, barriga, bracinhos, e quando chegou na cabeça ele falou: “Estão vendo aquela elevação acima do olho? Aquilo não é normal, tá?! Já deveria estar fechado e pode ser que não feche, temos que repetir o exame em 15 dias”.

Ah não! O que era aquilo? Eu não entendia nada, meu bebê tinha um problema, era isso? Comecei a tremer, a chorar, minha mãe pegou na minha mão e pediu pra eu ter calma. Como ter calma? Eu estava desesperada ,isso sim... O médico continuou e falou: “Vocês querem saber o sexo, né?! Qual a torcida?”, minha mãe respondeu que era pra menina e ele falou que era isso, uma menina!

Se eu fiquei feliz? Tenho que falar a verdade: não, não fiquei. Estava anestesiada, não queria acreditar no diagnóstico que ele passou. Mas não tinha o que fazer, tinha que aguardar para repetir o exame. Voltamos para casa e eu só sabia chorar, pedimos ajuda de amigos e parentes pra orarem pela Júlia, para o quadro se reverter. Busquei na internet o que aquilo significava, foi aí que conheci a acrania e anencefalia, nunca tinha ouvido falar antes. Pesquisei tudo, li todas as histórias, quase me especializei nesse assunto... 2 dias depois minha sogra pediu que fôssemos à clínica onde ela trabalhava para um outro médico repetir a ultra. Ele só falou que realmente havia uma anomalia e nos indicou um médico especialista em medicina fetal.

Uma semana depois (29/05/2013), estávamos lá, no consultório do Dr. Hebert pra repetir minha ultra. Enquanto tirava a roupa, só pedia a Deus pra fazer a sua vontade na vida da minha filha. Me tremia dos pés a cabeça. Deitei na cama, antes de iniciar o exame o Dr., após ver a última ultra, falou que estava bem nítido e que provavelmente esse era o diagnóstico. Iniciou o exame e estava lá, a cabecinha da minha filha aberta, nenhum osso havia se formado naquela região. Ela era tão perfeitinha, suas mãos estavam na cabeça, parecia que sabia que tinha algo errado, seus pezinhos eram lindos, coração a 167bpm, tudo certinho, exceto a região da cabeça. Eu só conseguia chorar, chorar e mais nada. Meu marido, minha mãe e minha sogra também choravam muito. Minha mãe me abraçou, não tinha palavras. O médico explicou que eu poderia abortar, que já era “legal” pela justiça ou que poderia continuar com a gravidez, que minha médica iria me assistir normalmente.

Sinceramente, naquela hora não conseguia pensar em nada. Só queria ir para casa, chorar para tentar refletir na minha decisão. E foi o que fiz. Após chorar muito com meu marido, ele me disse: “meu amor, seja qual for a sua decisão, eu vou estar ao seu lado”. Enquanto ele deu uma saída, eu fiquei sozinha, com meus pensamentos, e pedi a Deus pra me dar uma direção, porque do fundo do meu coração, eu não sabia o que fazer. Entrei na internet e fui pesquisar sobre o assunto, sobre casos como o da minha filha, sobre mães que passaram por isso. Foi aí que li a história da Vitória de Cristo e uma carta de uma mãe ao filho anencéfalo chamado Vitor... Nossa, a cada frase que lia me debulhava em lágrimas, e foi aí que vi que não teria coragem de abortar a minha tão sonhada filha, a minha menininha, a minha Júlia.

Pronto, decisão tomada, resolvi levar a gravidez até o final, até quando Deus quisesse. Porque só Ele tem o poder de dar a vida a alguém, então só Ele tem a permissão de tirar também. Além de tudo, eu já amava muito minha filha, cada pedacinho dela, um amor de mãe mesmo, amor verdadeiro, intenso, inexplicável. Muitos eram contra a minha decisão, diziam que eu estava prolongando um sofrimento, que eu estava carregando em meu ventre alguém que iria morrer logo depois que nascesse, ou até na própria gestação, mas minhas palavras eram sempre as mesmas: “não vou tirar o direito da minha filha de viver, o tempo que Deus quiser, e se acontecer na gestação, assim foi a vontade Dele, e não a minha”.

E assim eu segui, curtindo cada momento da minha gestação, tirando fotos, conversando com minha sapeca. Com exatamente 17 semanas ela começou a mexer, aí não parou mais, mexia todo dia e cada dia mais e mais... Own, eu não me continha de tanta felicidade. É claro que algumas pessoas da família falavam que o exame poderia estar errado, que ela era perfeita, mas eu sempre falava que independente de como era fisicamente, era minha filha, e eu a amava do mesmo jeito. Se Deus quisesse fazer o milagre, seria a coisa mais maravilhosa do mundo, mas se não fosse sua vontade, eu não iria me revoltar de forma alguma, pois Ele sabe de todas as coisas, nós não sabemos de nada.

Passou-se o tempo, eu fui sendo acompanhada direitinho pela minha médica, que foi um anjo, me deu muito apoio pra continuar com a gravidez. Com 22 semanas, 10 depois da última, fiz a ultrassonografia morfológica, a imagem já era bem diferente, o que inicialmente era caracterizado como acrania já tinha evoluído para anencefalia. Fora isso, minha filha era perfeita, todos os dedinhos, todos os órgãos, coração batendo forte, minha princesa, meu anjinho... mas pra mim e pra Deus, ela era TOTALMENTE perfeita.

Comecei a ter problema de pressão, baixava do nada, eu quase desmaiava na rua, indo trabalhar, mas seguia curtindo a gravidez, firme e forte, fazia carinho, dizia o quanto a amava, enfim, fiz de tudo pra ter uma gravidez normal. Passando as semanas, comecei a sentir muita falta de ar, dores na barriga, na coluna, e isso foi ficando mais difícil. Com 31 semanas descobri, através de uma ultra, que aqueles sintomas eram devido a uma polidramnia acentuada, pois a Júlia não conseguia deglutir o líquido amniótico. Minha médica pediu pra eu fazer o máximo de repouso, pois minha bolsa poderia romper a qualquer momento. 

Como tinha entrado de férias na semana anterior, o que eu precisava mesmo era repousar em casa. Ok, fui levando a gravidez, mas algo me dizia que eu não conseguiria chegar às 37 semanas no mínimo, estava ficando cada vez mais difícil, nem andar direito eu conseguia, dormir então, impossível... Com 35 semanas voltei à médica, ela mediu minha barriga (que segundo ela já estava de 10 meses...rs), me examinou e falou: “Jéssica, você já aguentou tudo que podia, sua filha já pode nascer, vou fazer o seu parto amanhã, já está te prejudicando”. Eu fiquei nervosa, me tremi, mas não tinha outra opção, estava inviável pra mim, eu me rastejava já, até falar era complicado, devido à intensa falta de ar.


Ok, marcamos tudo e no outro dia bem cedo eu e meu marido estávamos no hospital, nervosos, mas eu estava com a consciência tranquila... A médica chegou, me levou bem rápido pra sala de cirurgia, nem deu tempo dele me acompanhar porque ficou resolvendo a liberação da minha acomodação em um quarto. Levei o celular, queria tirar fotos dela, tinha muita esperança dela viver um bom tempo. Entrei na sala, aí já não conseguia conter a tensão, acho até que minha pressão aumentou. Eu tinha muita água, só ouvia o barulho do aspirador e a médica brincando com a outra que tinham que ser dois aspiradores. Pronto, vi o anestesista tirando fotos, mas não ouvi o choro da minha filha. Ela nasceu no dia 06/11/2013 às 6h51. Queria vê-la de qualquer jeito, o pediatra a pegou e foi limpá-la e enrolá-la para me mostrar, demorou alguns minutos, mas não sei ao certo quanto tempo. Ele veio com ela e falou: “aqui sua filha, você não queria ver?” Olhei pra ela, estava de olhos abertos, mas acho que já não estava mais viva, nem perguntei, só a beijei e disse que a amava. Ele a levou falando pra chamar o pai.

Saí da sala e fiquei aguardando do lado de fora, na maca. Sabia que meu marido estava preocupado comigo, pois eu contei que do meu primeiro filho minha pressão subiu muito na hora do parto, e ele sempre me dizia: “meu amor, eu estou me preparando psicologicamente pra perder nosso anjinho, mas não suportaria te perder.” Ouvi a enfermeira dizer que ele estava querendo me ver, e chamou o maqueiro pra me levar para o quarto. Quando saí da sala, ele estava me esperando e me beijou, perguntou se eu tinha visto nossa filha e eu respondi que sim. Quando cheguei ao quartom, havia algumas pessoas, todos já sabiam que ela não tinha resistido, e fui muito bem acolhida por todos.

Consegui com minha médica que me desse alta no dia seguinte para eu poder me despedir do meu anjinho, e ela disse que faria assim, que eu era uma fortaleza e que logo logo Deus estaria me abençoando com, de repente, dois lindos bebês. Até arrancou um sorriso de mim.

A despedida foi uma hora muito difícil. Olhar para aquele serzinho que eu gerei, carreguei em meu ventre, senti os chutes, fiz tanto carinho, cantei, amei tanto e vou amar pra sempre... Dei um beijo nela e pronto, ela ficou lá...

Minha filha, saiba que tudo que mamãe pôde fazer por você, mamãe fez. A dor é muito forte, mas sei que você não sofreu e isso pra mim é o que mais importa. Jamais suportaria carregar em mim uma culpa de não ter deixado você cumprir sua missão aqui na Terra, mesmo que por poucos minutos. Te amarei eternamente, meu anjo, minha Júlia!

Jéssica Carla Conceição da Silva
São Gonçalo, RJ

5 comentários:

  1. Nossa, acompanhei sua gravidez e não sabia, Feliz por ter compartilhar sua historia, e mais feliz em saber que foi tão forte, e que em momento algum ficou com raiva de Deus, Deus sabe de todas as coisas, é um anjinho que vai cuidar de você, você fez tudo que podia ser feito!!

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  2. Anjos ;* Perdi o meu tambem foi tao dificil receber a noticia saber tomar a decisão certa, mais nada melhor do que senti eles chutares ouvi o coração deles... A Dor, Saudade e o Luto e parte mais ruim ... Mais Deus sempre vai esta com nos, mães de anjos

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  3. Que Jesus conforte seus corações (Familia).

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  4. Nossaaaaaaaaaa................Sem palavras...................Só Deus presente na vida de vcs...........Muita força!!!


    :(

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  5. Nossa............Sem palavras para descrever tamanha dor...........Só quem é mãe pode imaginar.........Que o Senhor Deus conforte o coração de vocês!!!!


    :(

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