Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Trauma psicológico após o aborto por deficiência fetal - os pais precisam conhecer os fatos

Por Peter Saunders*

artigo publicado no blog Christian Medical Comment
tradução Joana Croxato

A crença de que os pais e as famílias serão prejudicados por ter um filho com deficiência, e que este dano pode ser limitado por meio do aborto, é quase inquestionável hoje.

Este tem sido um importante pressuposto aceito por muitos participantes do debate atual sobre o aborto por anencefalia na Irlanda do Norte, sobre o qual tenho escrito recentemente.

Mas será que a literatura médica sustenta essa afirmação?


Essa é uma importante questão a ser feita, tanto para a Irlanda do Norte quanto para o resto do Reino Unido, onde o aborto por deficiência fetal já é legal, até o momento do nascimento.

Estatísticas recentes mostram que entre 2002 e 2010 houve 17.983 abortos de bebês com deficiência na Grã-Bretanha. A esmagadora maioria destes foram para condições compatíveis com a vida fora do útero e 1.189 bebês foram abortados após 24 semanas, a idade aceita de viabilidade.

Nestes 17.983 abortos estão incluídos casos de deficiência grave, como a anencefalia, mas também bebês com síndrome de Down, fenda palatina e pé torto.

O trauma psicológico após o aborto parece ser menor quando a gravidez é precoce, quando não há ambiguidade materna sobre a decisão e quando a criança não era definitivamente desejada.

Por outro lado, o trauma psicológico é mais marcante quando é feito tardiamente e em gravidezes desejadas.

Como os abortos por anormalidade congênita geralmente ocorrem em gestações que já estão mais avançadas e quando a criança é desejada, não é de se estranhar, portanto, que a morbidade psicológica seja considerável.

A morbidade psicológica (a) após a interrupção da gravidez por deficiência fetal é prevalente e persistente (1,2) e associada com consequências duradouras para um número significativo de mulheres (3).

Ao invés de levar a um bem-estar psicológico, a interrupção da gravidez por deficiência fetal é um evento emocionalmente e significativamente traumático na vida da mulher, que leva a respostas de estresse pós-traumático grave (b) e reações de luto intenso que ainda são detectáveis ​​alguns anos mais tarde (4).

As pessoas não "superam" isso facilmente, embora o suporte adequado durante a perda possa diminuir a morbidade psicológica (5). Na verdade, as mulheres que interrompem a gravidez por anomalias fetais experimentam dor tão intensa quanto aquelas que experimentaram uma perda perinatal espontânea (c), com cerca de um quinto delas desenvolvendo depressão e / ou necessitando de intervenção psiquiátrica (6).

As famílias também não estão imunes, mesmo crianças muito jovens e aquelas que foram protegidas do conhecimento do evento ocorrido, mostram reações à angústia dos pais e à ausência materna (7).

Alguns podem experimentar uma reação de luto agudo ou ser atormentados pela culpa e pelo medo, situações que podem precipitar uma ruptura conjugal. Além disso, existe o risco de que, através do esforço para erradicar a deficiência congênita, a comunidade acabe por promover um culto ao perfeccionismo que pode ter efeitos discriminatórios sobre pessoas com deficiência (8).

Por outro lado, os dados atuais sobre as crianças e famílias afetadas por deficiência indicam que a deficiência não impede uma vida satisfatória. Muitos problemas atribuídos à existência de uma deficiência na verdade resultam de arranjos sociais inadequados que os profissionais de saúde pública devem trabalhar para mudar (9).

Isto, juntamente com a morbidade psicológica que frequentemente acompanha o aborto por deficiência fetal, têm levado muitos à conclusão de que o aborto por deficiência fetal, mesmo que grave, bem como tirar a vida de uma pessoa com deficiência, também é pior para os pais e as famílias envolvidas.

Isto é sublinhado por um relato de caso em que uma mãe, contra o conselho recebido, optou por carregar a termo um bebê com anencefalia, que seria eventualmente um bebê natimorto. Verificou-se depois que ela estava "lidando bem com a situação e estava emocionalmente mais estável do que a maioria das mulheres que se submeteram a uma interrupção por razões genéticas" (10).

Janet Goodall, um pediatra com experiência de toda uma vida em cuidar de crianças com deficiência grave, descreve o "efeito pérola".


"Em uma cultura que vê o sucesso e o fracasso em termos materialistas, muitos vêem as crianças com deficiência como um fardo extra.

Mas, paradoxalmente, as taxas de divórcio e infelicidade não são mais comuns nas famílias de crianças com deficiência do que naquelas com crianças saudáveis.

Como o grão na ostra que faz com que uma pérola se forme, cuidar de uma criança com necessidades especiais muitas vezes fortalece os vínculos nos relacionamentos e incentiva o crescimento espiritual.

Como a agonia do Getsêmani levou à ressurreição e à vida, da mesma forma o amor recíproco entre a criança com deficiência e seus pais e o cuidado demonstrado por profissionais, famílias e igrejas podem atuar como um catalisador para a maturidade e estabilidade." (11)


A ética cristã, que chama os que são mais fortes a fazer sacrifícios pelos mais fracos, seguindo o exemplo do próprio Cristo para conosco, leva a um fortalecimento da família e da sociedade, por combater a discriminação e fortalecer virtudes humanas de paciência, perseverança e altruísmo.


Referências






















11. Goodall J. The Pearl effect. Triple Helix 2003;10-11(Winter)



* Sobre o autor: Peter Saunders é médico cirurgião geral e Chefe Executivo da Christian Medical Fellowship, uma organização sediada no Reino Unido, com 4.500 médicos e 1.000 estudantes de medicina como membros.





Glossário:

(a) Morbidade: taxa de portadores de determinada doença em relação à população total estudada, em determinado local e em determinado momento. Portanto a morbidade psicológica é a ocorrência de problemas psicológicos.


(b) Estresse pós-traumático: transtorno psicológico; perturbação psíquica decorrente e relacionada a uma situação ou evento fortemente ameaçador, estressante ou catastrófico.



(c) Perda perinatal espontânea - a perda de um filho por morte espontânea (não provocada) durante o período perinatal, período entre as 20 semanas de gravidez e os primeiros 7 dias após o nascimento.

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