Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Heloísa, para sempre a filha do meu coração!



Sempre quis muito ser mãe, era um desejo desde menina. Sempre tive isso em meu coração, seria mãe cedo. Eu casei em 2006 e, em março de 2009, decidimos tentar. Em maio, descobri que estava grávida. Fiquei muito feliz, mas muito mesmo. Que alegria! Ganhei muitos presentinhos das minhas amigas, pois todas sabiam o quanto isso era importante pra mim.


Mas, quando fui fazer o primeiro ultrassom, em 30/06/2009, o coraçãozinho do meu anjinho tinha parado. Foi o fim pra mim. Quase morri do coração. Depois sofri todo aquele procedimento: internar, fazer curetagem... Ficou um vazio enorme, parecia que não conseguiria voltar a viver antes de ter outro bebê. Minha médica me recomendou esperar três meses para uma nova tentativa. Como era difícil pra mim ter que esperar três meses. Parecia uma eternidade. Até que resolvi não me cuidar mais e após dois meses, na minha primeira tentativa, eu tive o positivo nas mãos. Muita alegria novamente, mas com certo receio. 

Eu vibrava, agradecia a Deus a cada minuto, pois era tudo que eu mais queria! Fiz o primeiro ultrassom com cinco semanas, nem tinha aparecido o embrião ainda, mas era muito perfeito pra mim. Fiz outro com sete semanas e vi o coraçãozinho, porém ainda não deu pra ouvi-lo. Cada ultra era uma alegria! Com nove semanas fiz outra. Foi magnífico: as perninhas mexendo, os bracinhos... Que coisa mais linda! Era tudo muito perfeito pra mim. Como eu tinha engravidado rápido, minha médica pediu certo repouso. Quando eu fiz 12 semanas, ela disse: “Parabéns! Vocês passaram pelo período de risco, agora é só esperar!” 

Ela pediu a ultra da Translucência Nucal, que é o exame que verifica se seu filho tem alguma síndrome, como a Síndrome de Down. Na hora do exame, o médico não conseguiu achar a translucência nucal, mas disse que era normal. Pediu para eu repetir com 13 semanas. Fiquei preocupada, mas nada que me desesperasse. Quando cheguei ao consultório, com 13 semanas, ele fazia a ultra e me virava de um lado, virava do outro... tudo em silêncio. 

Quando terminou, ele pediu para esperarmos um pouquinho e nos disse: “Seu bebê tem um probleminha”. Eu gelei dos pés a cabeça, meu mundo caiu só de ouvir aquilo. Ele perguntou se já tínhamos ouvido falar em anencefalia. Eu já tinha ouvido falar, mas não fazia ideia do que era. Ele explicou que anencefalia é a falta total ou parcial do cérebro. Eu me desesperei, meu marido nem falava mais. Foi quando ele disse que eu poderia optar por interromper a gravidez e que a minha médica iria falar certinho comigo. Saímos dali como se o mundo tivesse acabado, foi muito horrível para mim, parecia que meu sonho tinha acabado ali.

Fui atrás da minha médica e ela não estava na cidade, chegaria no outro dia. Decidi repetir o exame em outro lugar, mas o resultado foi o mesmo! No outro dia, na consulta, ela me orientou a entrar com pedido de aborto, me deu o laudo e eu fui conversar com um amigo advogado para entrar com o pedido. Mas eu pensava em casa, sozinha e meu coração dizia que aquilo não era certo, que se fosse para eu acabar ali Deus teria feito como na primeira vez, teria levado por conta própria. Era um momento muito difícil. Com certeza para mim seria mais fácil acabar ali, interromper a gravidez, mas eu tinha que mostrar naquele momento minha fé no meu Deus e fazer a sua vontade. Eu tinha receio de falar para o meu marido e ele não concordar. 

Quando eu decidi falar, ele respirou aliviado e disse que também estava com este pensamento, mas tinha medo de me falar. Pedimos para não seguir com o processo e decidimos levar minha gravidez em frente. Não foi fácil no começo, mas fomos tentando levar tudo normalmente. Depois de um determinado tempo, resolvi entregar tudo nas mãos do Senhor. A partir dali, tentei curtir ao máximo minha gravidez. Lógico que eu sofria muito a cada ultrassom, não comprava nada, não fizemos o quartinho, mesmo tendo as coisinhas, ficamos apenas curtindo o bebê. 

Os médicos do ultrassom não afirmavam o sexo, diziam que, possivelmente, não formaria. Fiquei muito chocada, porque eu queria dar um nome ao meu bebê, queria saber se era menino ou menina! Até que com quase 6 meses, a médica disse que, possivelmente, era uma menina. Colocamos o nome dela de Heloísa, que significa "menina forte". A cada dia eu buscava mais a Deus, implorava pra ele deixá-la comigo, eu orava com ela, cantava com ela, até contava historinhas! Curti muito ela na minha barriga, mas muito mesmo. Ela mexia muito, era uma delícia. Eu tinha muitas pessoas me apoiando, torcendo e orando por mim. 

Chegou a certo momento da gravidez que eu tinha certeza que Deus faria um milagre em minha vida. Foi inesquecível para mim o sentimento de possibilidades. Às vezes, eu pensava que ia dar tudo certo sim, que Deus estava vendo como queríamos a nossa filha. A cada dia, eu implorava mais a Deus. Fiz um book para ter tudo registrado, porque eu queria mostrar a ela como ela foi esperada. Até que marquei o dia do parto, fiquei muito apreensiva, chorei... Mas eu esperava o melhor de Deus. 

Meus amigos ficaram ao meu lado, me apoiaram e isso foi muito importante pra mim. Meu parto seria cesariana, pois eles dizem que, no caso de anencefalia, o bebê não estimula o nascimento. Arrumei as malas, a minha e a dela, tudo prontinho. Estava marcado para o dia 13 de Maio às 14h30min. Minha mãe, que mora em Curitiba, chegou para estar comigo. Eu estava tranquila, mas muito tranquila. Me internei ao meio dia. Na hora do meu parto, meus amigos me acompanharam, havia mais de 15 pessoas na recepção. Como meu plano é enfermaria, dificultava um pouco as coisas, mas pelo fato de ser um caso diferente, fui muito bem atendida, com muitas regalias! 

Meu parto estava marcado para as 14h30min, mas vieram me dizer que tinha sido mudado para as 16h30min, creio que para eu não ficar tão apreensiva. Eles me buscaram às 15hs. Aí toda a calma e tranquilidade que eu tinha acabou. Fui para o centro cirúrgico desesperada, quase morrendo de chorar. Me deitaram na cama e fiquei com muitas enfermeiras me consolando, até que me acalmei. O anestesista chegou e veio me preparar, foi muito tranquilo. Fui anestesiada, minha médica chegou e, então, começaram o meu parto. Que momento difícil! Eu sabia que Deus poderia fazer um milagre em minha vida, mas parece que eu já estava sabendo que a vontade dele não era essa. Eu já sabia que tudo que eu mais sonhei estava começando ali e acabaria horas depois. O anestesista foi um enviado de Deus naquele momento, ele ficou o tempo todo ali comigo, passava a mão no meu rosto, mexia na minha orelha, falava que eu tinha que pensar que existia um Deus olhando pra mim. Sabe, ele conseguiu me acalmar um pouquinho. Ele me disse para respirar fundo e eu senti que forçaram minha barriga. 

Foi quando eu escutei minha médica dizendo: “Cobre a cabecinha dela e mostra pra mãe, que ela quer ver!” Foi aí que eu percebi, realmente, que ela tinha nascido e com a maldita doença que a levaria logo de mim! Me mostraram ela, estava muito roxinha e eu me desesperei. Me sedaram porque eu estava muito nervosa. Não vi mais nada. Quando eu voltei a mim, já estava quase indo para o quarto, me perguntaram se eu queria vê-la novamente e eu disse que sim. 

Trouxeram e ela já estava mais clarinha. Ela era linda, muitíssimo gordinha, moreninha, igualzinha a meu marido. Eu estava muito mau e a levaram... Quando cheguei ao quarto, estavam minha mãe e minha sogra. Eu me sentia péssima, parecia que tudo estava acabando. A enfermeira veio e me perguntou se queria veê-la novamente e eu disse que sim. Ela a trouxe e a colocou ao meu ladinho, e ali ela ficou. 

Que sentimento lindo, amor e mais amor, mas alegria e tristeza misturados, pois era o momento mais lindo da minha vida, mas já sabia que, logo em seguida, viria o mais triste também. Ela não chorava, apenas soluçava bem fraquinho. Ao meu lado, ela ficava quietinha, bem boazinha. Todos no quarto só olhavam e choraram de ver aquela situação. Levaram ela de novo. Foi muito triste, então os meus amigos começaram a entrar para me ver, um de cada vez e foi bom para mim, porque o tempo passou. 

Seis horas depois do parto, eu quis levantar e tomar banho, porque eu sabia que poderia ir vê-la. Levantei, tomei banho e, já em seguida, pedi pra vê-la. Eles pediram pra eu ir na manhã seguinte, mas eu queria ir naquela hora. Então me levaram de cadeiras de rodas. Lá estava ela, na incubadora, peladinha, moreninha, linda. Abriram a incubadora e deixaram eu ficar alisando ela. Tinha uma pele macia, fofinha, apesar da malformação na cabecinha, ela era linda, perfeitinha, o nariz igualzinho ao meu (meu marido diz que meu nariz é de batata rs), e o resto todinho dele. 

Mas ela era linda, as mãos enormes, dedos cumpridos, as unhas dos pezinhos meio encravadinhas, como a do pai... Eu decorei ela todinha, até que ela começou a suspirar e as enfermeiras perguntaram se eu me importava em parar, porque ela estava precisando de oxigênio. Eu fui embora, meu coração estava feliz em vê-la, mas parece que eu já sabia que era a última vez. Eu, ao menos, tive coragem de falar que a amava, todo o tempo em que fiquei lá com ela, eu ficava em silêncio. Voltei ao quarto e tentei dormir, porque queria que amanhecesse logo pra vê-la novamente. Quando foi 3h15min da madrugada meu celular tocou e quando a pessoa ouviu minha voz desligou. Eu nem me toquei. 

Não demorou nada e a enfermeira chegou e me deu a triste notícia. Tinha chegado a hora dela. Ela já estava nos braços do pai! Meu coração se despedaçou e ali acabou meu sonho. Fizeram o enterro e eu proibi de avisarem qualquer pessoa. Gostaria que estivesse só a família no momento, pois afinal eu não estaria lá, não deixei abrir o caixão, pois pra mim ela era linda e não queria que ninguém a visse. Mesmo assim foram mais de 50 pessoas no enterro. Cheguei do hospital no sábado e, no domingo de manhã, já fui ao cemitério ver onde ela estava! 

Agora estou aqui, com belas recordações dela e pedindo para Deus fazer com que o tempo passe rápido, não para esquecê-la, porque seria impossível, mas pra que esse sentimento vire saudades. Ela foi o presente mais precioso que Deus me deu. Logo em seguida, Ele a tirou, mas deve ter um propósito com isso, meu coração está aliviado, pois eu fiz com que se cumprisse o propósito de Deus na minha vida, fiz a vontade dele. 

E sei que através do meu testemunho muitas vidas serão tocadas em nome de Jesus. Como foi inexplicável o sentimento, tanta alegria e tristeza ao mesmo tempo, Heloísa viveu intensamente por 11 horas e foi o suficiente para compensar todo o sofrimento que passamos. Tão gordinha, moreninha como o pai, com aqueles solucinhos, que perto de mim acalmavam. Pude sentir o verdadeiro sentido da vida, o verdadeiro sentido de ser mãe e, acima de tudo, me sentir orgulhosa, pois deixei ela viver o tempo que Deus permitiu. 

Posso dizer que passamos muito tempo juntas, que nos amamos e nos curtimos com muita intensidade. Todos os dias eu cantava para ela dormir mesmo na barriga, lia a bíblia, contava historinhas, tinha certeza que Deus faria um milagre em nossas vidas, implorava a Ele todos os dias por isso, mas Ele fez o desejo do coração dele. Agora não entendo, mas sei que vou entender. Ela era especial demais para viver neste mundo, então, Ele a buscou, para Ele mesmo cuidar. Agradeço a Deus, pois ela era perfeita aos olhos do Pai. Hoje, ela não me pertence, mas pertence a Deus!

Heloísa, minha filha, minha vida, a batida mais forte do meu coração!!!


Esse relato foi escrito na semana em que a Helo se foi, há exatamente 3 anos e 3 meses. Hoje continuo com o mesmo pensamento, que ela era especial demais, e que eu faria tudo de novo por ela, que eu a amo com todas as minhas forças, e hoje a dor virou saudades. Lógico que eu imagino o tamanho que ela estaria, as gracinhas que estaria fazendo, mais hoje já consigo fazer isso sem aquela dor que nos consome! 

Então acho que cada segundo valeu a pena, cada segundo em que tive ela em minha barriga, e também as horas em que ela viveu, cada lágrima que derramei por ela, porque hoje tenho em meu coração que fui a mãe que Deus preparou para ela, e ela a filha que Deus me deu, por pouco tempo presente em minha vida, mas para sempre a filha do meu coração!


Tamirys Colasso Lima
de Santa Fé, Paraná

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