Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A história da nossa filha, Cecilia Morais





Dia 14/07/2013 fez um ano que a nossa Cecilia nasceu e partiu. Posso afirmar (e reafirmar) que foram 365 dias de lembranças e saudades daqueles outros 236 dias da sua gestação e mais ainda dos 39 minutos em que a tivemos viva em nossos braços, amando-a e nos despedindo também. Inesquecível é a palavra que a define, literal e completamente.

Desde o primeiro momento que descobri estar grávida, mudei e apesar de já ser mãe e saber que essa é minha melhor parte, as sensações que me acometeram foi desde a preocupação intensa, medo, misto de felicidade, realização, expectativa, até o maior amor do mundo, tudo isso intenso e misturado. Minha primeira filha Nina teve uma ligeira complicação ao nascer, com 41 semanas, ela engoliu mecônio e vivenciamos o milagre dela ter se recuperado bem e não ter tido nenhuma sequela. Como mãe, automaticamente me veio toda a carga de amor e de preocupação, que nos é típica.


Com poucas semanas, através de dois testes de farmácia descobri a gravidez (antes das festas de final de ano de 2011), só contei ao meu marido e fui contando aos amigos e familiares aos poucos e toda essa preocupação deu lugar aos novos planos da nossa pequena família. Passaram-se as festas e no dia 09/01/2012 fiz mais um teste de farmácia, exames de sangue completo, urina etc., todos positivos, então já estava com 8 semanas e comecei a tomar as vitaminas. Marquei para iniciar o pré-natal dia 24/01/2012 e nesse dia já estava com os resultados dos exames na mão, tudo estava certo e pela DUM estava com 10 semanas.

Marquei uma ultrassonografia para o dia 09/02/2012 e fiquei na expectativa. Fui sozinha, pois só encontrei horário no meio da tarde e meu marido não pôde ir. Fui toda feliz, coloquei uma roupinha de gravidinha apesar da barriga ainda não aparecer, tirei uma foto e estava muito ansiosa. Chegando lá vi meu “pãozinho no forno” e tudo estava bem, a gestação era de 12 semanas e só consegui ver o “saco gestacional, com polo embrionário, dotado de batimentos cardíacos, com frequência elevada”. Uma fofura, ouvi seu coraçãozinho e já amei muito. Voltei para casa feliz, lembrando-me de tudo e fazendo referências sobre a gravidez da Nina. Em casa mostrei o exame ao meu marido e ficamos felizes em ver que nosso bebê estava bem.

Cada dia mais nos preparávamos para a gravidez, minha filha amou saber que teria um(a) irmãozinho(a), só queria saber de "cuidar" do bebê quando nascesse. Logo se começou a especular sobre o sexo do bebê, torciam para ser um menininho, escolhiam nomes e apesar de não me importar com o sexo, não me acostumava em procurar coisas de meninos na internet, sempre acabava babando por coisinhas de meninas. Achei nomes de meninas bonitos, mas Cecilia chamava minha atenção, apesar de não simpatizar com o significado.

Em 25/02/2012 comemoramos o aniversário de 4 anos da Nina, com alguns familiares e os amigos, todos felizes por nós, pois a família estava aumentando. Fazíamos grandes planos de mudança, teríamos que reformar nossa casa para receber um novo membro e meu marido estava prestes a começar em um novo emprego.

Era 13/03/2012, nesse dia em que justamente ele foi levar seus documentos para iniciar na empresa, fomos juntos fazer uma ultrassonografia, estávamos empolgados e mal sabíamos que esse seria o primeiro dia que nos depararíamos com uma palavra, não desconhecida, mas nunca imaginada em nossas vidas.

Estava com 17 semanas e como na primeira vez que vimos nossa primeira filha juntos, não nos emocionamos de cara e sim ficamos embasbacados e curiosos para entender a imagem da ultra, vimos o bebê, seu corpinho, coração batendo, mas logo a ultrassonografista disse que não estava conseguindo ver tudo, que não conseguia ver o bebê direito. Pediu-nos para sair, andar, comer alguma coisa bem doce porque o bebê estava parado demais e numa posição que não permitia ver todo seu corpo e cabeça. Refizemos a ultra em alguns minutos depois e ela com a mesma expressão disse que não conseguia ver direito o bebê, pedindo que solicitássemos uma ultrassonografia morfológica de urgência à minha G.O. Meu marido perguntava insistentemente se havia algum problema e ela se abstinha de responder com exatidão, dizendo que só não conseguia ver tudo direito. 

Não nos foi afirmado com certeza o que havia de errado, mas no carro ao abrir o exame e ler aquela palavra fomos imersos nesse misto de preocupação e incerteza. 

A palavra era: Anencefalia.

Fomos para casa e contamos para a família do meu marido, lembro-me de me sentir anestesiada, porém muito consciente, eu sabia o que essa palavra significava, não a fundo, mas já havia estudado um pouco sobre isso na faculdade. Meu marido negava e dizia que se tratava um erro, nossos familiares também. Fomos nessa mesma tarde procurar a minha G.O. para saber o que ela diria, mas não a achamos e nem conseguimos fazer a ultra de emergência, só a encontramos no dia seguinte e olhando os exames, ela também não pôde afirmar com certeza e agendou um consulta para a próxima semana com um médico, amigo dela, que por sinal era o diretor da medicina fetal do HMU de São Bernardo do Campo, ele poderia dizer com certeza se era ou não um caso de má-formação e já nos explicaria tudo.

Nossa jornada começou aí...

Em uma semana inteira de espera, senti cada um dos sete dias da semana como se fosse algo surreal, que logo lembraria como uma semana de susto, medo e muita ansiedade. Cheguei a me questionar como pessoa, se aguentaria a fatalidade. Pensei muito no meu primeiro parto, em ter quase perdido minha filha e agora isso poderia realmente acontecer, fiquei em pânico, mas tentei me segurar até saber exatamente, poderia ser um engano.

Já pesquisei muita coisa na internet e o que me mais prendeu a atenção foi o olhar doce dos bebês e os exemplos lindos de amor incondicional que os pais demonstravam em suas histórias.

Enfim, essa semana passou e fomos fazer a ultrassonografia juntos. Fomos chamados na sala de ultrassonografia e recebidos por uma grande equipe médica, mas não gostei mais de estar rodeada de pessoas nesse momento de tanta expectativa para nós. Logo no inicio da ultrassonografia, o médico, que até então não sabia que tínhamos uma esperança de que tudo não passasse de um engano, um erro ou algo que não pôde ser bem visto na primeira ultrassonografia, esse médico em duas ou três passadas da máquina em minha barriga, já me questionou: “Vocês já sabiam que é um anencéfalo?”. Emudeci, gaguejei, enfim, o mundo parou... Juntei forças e tentei explicar que estava ali porque não ficou claro isso na última ultra. Mas eu entendi bem, meu marido não muito, ficou em choque e o médico percebendo isso, esperou, olhou mais e se prontificou a explicar tudo detalhadamente.

Foi aí que conheci a fundo minha Cecilia, pude vê-la, explorá-la dentro de minha barriga. Que bom ter essa tecnologia! Ele nos informou o sexo, era uma menina, como eu sentia no fundo. Disse que a incidência era maior em meninas, mostrou a lesão, mas isso nem posso dizer que vi de início. Mas ele mostrou mais, mediu, explicou muito bem. Disse com todas as letras que nossa filha tinha anencefalia, que seu crânio não se formou completamente durante os primeiros dias da gestação (recordo da minha intensa preocupação nesse período, como um sexto sentindo) que só havia o tronco cerebral, que ele fazia com que seu coração e corpo continuassem vivos e que devido a essa má-formação e exposição, seu cérebro estava seriamente comprometido, que ela não tinha expectativa de vida pós-uterina e ele resumiu: essa condição é incompatível com a vida. 

Caímos no choro, que dor saber que nossa filha não teria ao menos uma chance.

Muitas explicações, dados e etc., e depois o Dr. começou a mostrar o perfil dela. O narizinho, boquinha e os olhinhos... Seu corpinho também, seu tronco. Logo se viu que o estômago não estava aparecendo na imagem, mas podia ter sido por causa da deglutição do bebê. Enfim, chegou a hora que ele mostrou e nos colocou para ouvir o coração de Cecília. Ah... Como é doce esse som, como me emocionou e me emociona até hoje... Uma vidinha dentro de mim, lutando apesar de tantos problemas... Coisa linda! 

Meu marido, Cristiano, pegava em minhas mãos ao ouvir meus soluços e pedia calma. Mas a emoção era muito grande, um misto de felicidade e muita tristeza. Ele perguntou ao Dr. se ela estava sofrendo, nos foi dito que provavelmente não, pois não podia sentir dor, ouvir ou enxergar, devido a lesão. Não sabia que isso era possível, se estar feliz e triste numa intensidade tão grande. As mãozinhas começaram a aparecer na tela novamente. Mãozinhas pequenas e perfeitinhas... Com dedinhos lindos e pequeninos. A outra mãozinha estava com alguns dedos fechados e o médico deu alguns empurrõezinhos na barriga e ela mexeu e abriu a mão. Uma lindeza de se ver... A seguir, muitas explicações e conselhos. 

Esse médico nos explicou sobre a lei do aborto que tramitava no Senado (foi aprovada no mês seguinte) e que ele, particularmente, era contra, se posicionou dizendo que não faria nada do tipo, mas que teríamos essa opção e mencionou o fato de que muitos médicos, os bons, não fariam de jeito nenhum. Logo já dissemos que isso não era nem uma opção para nós e tudo que queríamos era poder chorar e entender essa notícia toda. Assim o fizemos. Abraçamo-nos muito e choramos juntos, esse foi o momento de conscientização real, de perda do chão, estávamos sozinhos no mundo naquele momento, mas tínhamos que fazer o caminho de volta para nossa casa, sabendo que tínhamos uma responsabilidade ainda maior com as nossas filhas.

Foi muito difícil chegar em casa e inserir essa realidade em tudo que vivemos. Não conseguia me mover, falar ou pensar direito. Vi meu marido tentando se controlar e contar aos meus pais e familiares o que estava acontecendo, em meio a relutâncias de todos para aceitar e serem positivos, mas a gente tinha constatado e era concreto. No decorrer dos dias, semanas e meses recebemos apoio de todos à nossa volta, com orações, palavras e presenças.

Resolvemos poupar nossa filha Nina dos detalhes, devido à sua pouca idade, e por isso tratamos da forma mais lúdica possível. Como nos primeiros meses de gravidez ela alimentou muitas esperanças de ter um irmãozinho(a), separou brinquedos dela para dar a(o) irmão(ã) e fez seus planos, tentamos não a deixar vivenciar a tristeza inicial, o choque da notícia, e fomos gradativamente introduzindo a questão, sem detalhar. De uma forma bem natural, resolvemos ir falando sobre “anjos” inicialmente, perguntando o que ela sabia sobre eles e vimos que na cabecinha dela anjos eram criancinhas vestidas de branco, como vemos em desenhos. Daí fomos estendendo o assunto usando esse parâmetro, dizendo que Papai do Céu escolhia as crianças mais lindas para serem anjinhos e em certo momento perguntei o que ela achava se Deus levasse a Cecilia para morar com ele no céu. No início ela só ouvia, depois começou a imaginar como seria. Um dia eu lhe disse que isso aconteceria mesmo e sempre que ela perguntava a respeito eu falava que a gente ia ter muita sorte de ter uma anjinha pra cuidar da gente lá do céu. 

A parte difícil acontecia sempre que ela se imaginava fazendo isso ou aquilo com a irmãzinha, quando ela foi comprar as roupinhas com a gente, ajudou a escolher tudo e quando ela mesma ia dizer que queria pegar ela no colo com aquela ou outra roupinha, no mesmo instante ela dizia: "Ah, não! Ela vai morar no céu, né mãe?". Sentia sua tristeza e reforçava a ideia de que no céu tudo é maravilhoso, que ela cuidaria de todos e que poderíamos sempre falar com ela. Ela amadureceu essa ideia (do seu jeitinho) e ao final da gestação já estava explicando para todos que perguntavam sobre a irmã dela.

A gravidez seguiu, fazia o acompanhamento do pré-natal de risco com convênio e pela medicina fetal do SUS. Também foi uma forma de estarmos sempre em contato com ela, tinha muitas consultas, de 2 em 2 semanas e meu marido sempre ao meu lado. Procurei me informar sobre tudo, por mim e porque tinha que explicar a ele, que era mais relutante em aceitar os fatos. Encontrei este grupo de apoio que no início me ajudou muito só em saber de outras histórias, do amor que transmitiam e pelos dados e informações importantes que repassavam. Conheci outros bebês iguais a Cecilia, que ilustraram que não era só um problema, mas que essa condição tem suas particularidades e que podemos tirar o bom de tudo. Essas histórias me apoiam até hoje.

Tenho que mencionar que também tive alguns problemas, começando pelo despreparo dos médicos e profissionais da área para lidar com a anencefalia, com má-formação fetal em geral. Ficou claro desde o início que eu estava numa gravidez de risco e que só lutariam pela minha vida, de certa forma. Não quero entrar nesse mérito, mas passei muito mal sim na gravidez e por isso tentaram de muitas formas me desestimular e até me assustar, me culparam até de querer passar por tudo isso, mesmo sabendo que sequer minha filha tinha alguma expectativa de vida. Até depois do seu nascimento me deparei com especuladores e gente despreparada.

Em suma, apesar de estar rodeada de amor, me deparei com a insensibilidade humana em alguns casos. Mas ela não me venceu em nenhum momento.

Tive polidrâmnio, que é o aumento do líquido amniótico, devido ao fato da bebê não deglutir, e sofri com falta de ar, muitas dores nas costas e no corpo em geral. Não engordei mais do que 5 kg, mas minha barriga se assemelhava à altura uterina de uma grávida de gêmeos, isso com 6 meses de gestação. Foi necessário passar duas vezes por punção, que era a retirada do líquido através de uma grande agulha introduzida na barriga, com risco de ocasionar aborto e que retirava em torno de 2 litros a cada vez, só assim me dava um grande alívio devido à perda de peso do líquido retirado e da pressão na barriga. Após ficar quase 2 meses sem conseguir dormir e respirar direito, com 32 semanas fiz uma nova punção, e precisei ficar internada para observação. 

Novamente encontrei uma médica, que junto com o seu superior, acredito que o dono do hospital, tentava fazer com que eu adiantasse o parto, através de uma cesárea, queriam que eu abortasse o quanto antes. Não aceitei e tive que me impor nesse momento sobre minha decisão de deixar a natureza seguir seu curso. Eu até considerei fazer uma cesárea no final da gestação, mas queria que ela fosse a termo, que durassem 42 semanas, que é o limite, mas queria respeitar o período da gravidez, uma vez que poderia ter minha filha viva por pouco tempo depois. Eu estava com ela todos os dias, viva, ela mexia muito, conversa muito com ela, dava e recebia o carinho da minha outra filha, na barriga. Após quase 2 semanas da punção, com certo alívio, eu estava bem, achando que iria até o fim, mas prematuramente, com 34 semanas, entrei em trabalho de parto.

Percebi a perda do tampão mucoso à noite e, pelas explicações que sabia, o parto poderia acontecer de algumas horas até 15 dias depois, pensei que não era pra correr ao hospital, fui dormir e decidi só observar se nada mais acontecia, não me sentia mal, apenas um cansaço, uma forte vontade de ficar deitada. Pela manhã decidi ir ao médico, por via das dúvidas. Estava calma até então... Mas quando fui examinada já estava com 6 para 7 cm de dilatação e com pequenas contrações, sem dores e espaçadas.

Chorei ao saber que ganharia minha filha naquele dia, por medo, por tristeza de não poder tê-la mais comigo, mas também por felicidade em finalmente conhecê-la. Meu marido ficou paralisado e tentando entender o que aconteceria, foi cuidar da minha internação. Com a chegada do meu G.O. que tentou me acalmar, dizendo que tudo estava acontecendo no curso certo, no curso natural da vida, eu me acalmei mais e fui para a ala do pré-parto.

Nossa filha Nina surpreendeu em muitos detalhes e nos deu uma força imensa, na sala de espera. Estava radiante com a chegada da irmã, ficava repetindo a todos da família que a irmãzinha ia nascer e que ia ter uma festa de aniversário para ela no céu, só que eu tinha esquecido de fazer o bolo (risos). Uma festa realmente se preparava no céu.

Fiquei em trabalho de parto por 4 horas, intensas no final, tentaram me isolar um pouco no pré-parto, pois havia mais duas mãezinhas à espera do parto junto comigo. Fui para a sala de parto com 10 cm de dilatação e romperam minha bolsa artificialmente na tentativa de fazer minha filha mudar a posição no útero, se não conseguissem teria que fazer a cesárea. Mas ela encaixou direitinho e apesar da anestesia não ter pegado muito bem, o parto foi rápido, porém tive uma hemorragia muito grande e fizeram o possível para preservar meu útero. Mas nessa hora eu não quis ver, ouvir e saber mais nada, eu só tinha olhos para ela, chorei e chamei seu nome na tentativa de ouvir seu choro, ela não chorou... Mas estava viva!

Às 18h38 de um lindo sábado, nasceu a Cecilia, minha filha. Meu marido, muito emocionado, a trouxe nos seus braços e me entregou, linda, perfeita e muito serena. Pudemos dizer tudo que tínhamos no coração, amamos cada detalhe dela, beijamos e abraçamos nossa pequenina de 1.645 kg.

Sabíamos que ela estava partindo, mas ela estava presente, sua alma estava unida às nossas almas e isso nos trouxe paz, uma paz que nunca senti, que só pode ser traduzida como a presença de Deus naquela sala, que a levou e ao mesmo tempo nos confortou. O Cristiano enfim se entregou às suas emoções ao se deparar com sua segunda filha, ele a amou e pôde ser o mesmo pai protetor segurando-a firme, meio desconcertado, mas foi o melhor pai do mundo em todos os momentos com ela. 

Às 19h19 foi constatada sua partida, me despedi e me levaram para a sala de repouso. Meu marido e sua irmã a acompanharam saindo da sala de parto. Só pude voltar a vê-la no seu sepultamento, onde também me despedi do seu corpo. Não pude vesti-la com a roupinha branquinha que ganhou da avó paterna, mas meu marido, sem forças de fazê-lo, pediu à minha irmã, que é enfermeira, para trocá-la. Ela foi cuidada pela tia, que a abraçou, vestiu e arrumou seu caixãozinho, forrando-o com uma manta e fralda cheirosinhas, colocando também o brinquedo que a Nina separou para ela. 

Assinei minha alta com antecedência e pude acompanhar seu breve funeral, onde uma linda oração nos confortou e entregou nossa filha aos braços do Pai, tudo na presença dos familiares mais próximos. A despedida foi muito dura, queria sentir a mesma paz da hora do seu nascimento, mas a dor era descomunal, muito forte e além de estar com os seios cheios de leite, ainda estava muito fraca em consequência do parto. Mas fomos muito amparados pela família e amigos nesses dias que se seguiram, passamos por momentos realmente difíceis e agradecemos a Deus cada gesto e palavra de conforto, que foram essenciais.

Nossa filha Nina foi a nossa força, particularmente me apoiei totalmente nela, que nos alegrou e emocionou a todos que tiveram contato conosco durante esse processo. E o mais importante, ela ama muito a irmã, entende e fala constantemente que somos quatro. Sempre que fala da família, que faz seus desenhos ou conta histórias, introduz a irmã normalmente, como deve ser. 

Acredito que isso se dá pela pouca idade, mas ela a cada dia amadurece isso na sua cabecinha. Não consegui ainda achar um modo de explicar mais explicitamente sobre a anencefalia em si, achei muito difícil e como mãe, sigo meu coração. Eu queria muito viver tudo isso com a melhor das expectativas e não deixei de fazer nada, saímos, passeamos e aproveitamos a gravidez ao máximo, ela curtia muito a irmãzinha chutando, beijava e abraçava a barriga, falava com ela e perguntava se estava tudo bem na barriga, se preocupava, até hoje se lembra de como a viu na ultrassonografia e ora à noite para sua irmã. O amor foi natural e entender que ela não podia ser nossa, também. Um dia irei contar toda a história, do modo certo e ela vai amar mais ainda a irmãzinha.

Hoje, dado um ano do nascimento da minha filha, percebo que sua pouca vida encheu a vida da nossa família de amor, puro e sem expectativa. Vivemos o verdadeiro desapego. Sinto-me privilegiada de receber e doar tanto amor e é o amor que nos move até hoje e sei que para sempre o fará.

Deixo abaixo um poema, feito pela sua prima que, com muito amor e inspiração, traduziu o que significou sua passagem por nossas vidas.

"Ceci saiu de casa,
desceu a colina,
atravessou o rio.
Passou por um campo de flores.
Vestia vestido azul,
e estava com uma fita vermelha na mão,
com um chapéu velho
que cobria seus olhos;
e não cobria seu sorriso.
Ceci veio, para sempre."

Cecilia, te amamos e você será eterna para sua família.


Marta Rosa, 
de São Bernardo do Campo, SP

2 comentários:

  1. Li tudo com lágrimas escorrendo no rosto...

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  2. vitoria de cristo teve a graça de poder desfrutar do amor e serenidade de seus pais joana e marcelo. Gostaria muito que as outras crianças tambem tivessem tido a sorte que a vivi teve.Mas Deus é sabio e guia nossas vidas com sabedoria.Nós não sabemos de nada,só vivemos.

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