Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Miguel, um anjo em nossas vidas



No dia 6 de abril de 2012, descobri que estava grávida, foi a maior felicidade do mundo e também uma surpresa, já que só fazia um mês que eu tinha parado de tomar o anticoncepcional para trocar para outro. Eu e meu marido ficamos no céu, fiquei quase uma semana sem dormir pensando que chegaria alguém para completar nossa felicidade, fizemos vários planos... 

Com 12 semanas fizemos um ultrassom, mas como coração de mãe não se engana, apesar de ter visto ele perfeitinho, fiquei meio desconfiada. Cheguei em casa falando para minha sogra que estava tudo bem, mas que eu não tinha acreditado muito naquele médico, achei ele esquisito.

Minha sogra disse: “O importante é que venha com saúde”. Eu falei: “se não vier, vai ser amado do mesmo jeito”. Nunca me esqueço dessas palavras, sempre temos mania de dizer que o importante é que venha com saúde, mas eu o amaria mesmo se não ele viesse com muita saúde. E foi o que aconteceu. 


O diagnóstico

Com 19 semanas eu queria muito fazer um ultrassom morfológico, pois daria para ver tudo do bebê, até o sexo dele. Marcamos o exame e chegando lá, estava tudo certo, até o CD para gravar levamos. Era uma mistura de felicidade com ansiedade que nem tem como explicar. O médico começou o exame e perguntou: "Vocês já fizeram quantos ultrassons?", eu falei que era o primeiro, porque aquele que eu tinha feito não considerava. Ele nos disse que a essa altura já era para ter feito uns quatro ultrassons...

Aí começou o exame, só de olhar aquele ser quieto, eu chorava de felicidade, eu ia ser mãe, era tudo que sempre sonhei. Até porque tenho o útero “emborcado”, como as pessoas falavam, que eu não poderia ter filhos, mas enfim...

O médico foi fazendo o exame e em um determinado momento ele falou: "Seu bebê tem um problema". Eu gelei. Meu marido apertou minha mão. Olhando na tela, eu só via o rostinho dele com a mão na testa, eu pensei que era algo relacionado a isso. Então ele completou: “Seu filho não tem cérebro”, pensei: "Como assim, ele está morto?", passavam mil coisas na minha cabeça, e o médico continuou: “Ele tem “anencefalia”. O que é anencefalia? A gente nunca tinha escutado falar a respeito, a não ser muito por cima, quando estavam falando da tal lei horrível do aborto... Eu perguntei: "E agora?", e ele disse: "É aquele caso em que pode tirar o bebê". Perguntei se era menino ou menina e ele respondeu: "É menino!".

Senti como se o mundo se abrisse debaixo dos meus pés, me abracei em meu marido e choramos juntos como se nada mais existisse ao nosso redor... Sem acreditar, queríamos outro diagnóstico e decidimos ir a outra clínica, onde o médico confirmou o resultado, mas disse uma palavra que nos aliviou muito. 

Ele falou: "Está vendo isso aqui pulsando? É o coração dele, é isso que importa, se ele veio assim é por algum propósito".

Aí perguntei: "Mas doutor, tem a ver com o fato de eu não comer carne vermelha?". Ele respondeu: “Não Thais, se fosse por isso, todas as crianças da África, de países mais pobres, nasceriam  assim, porque por lá nem água eles têm, imagine frutas e vitaminas, até porque você me parece ser uma pessoa muito saudável. Mas procure um especialista”. Isso foi um alívio para gente, fomos para casa mais tranquilos e esperançosos.


A luta do pré-natal

Fui ao médico que já estava fazendo pré-natal pelo SUS e ao mostrarmos os exames, ele foi logo dizendo: “Você pode tirar, é só procurar a justiça que eu te encaminho para o hospital”. Quis morrer, por que tirar meu filho, se ele estava vivo? Eu disse: “Não doutor, ele vai nascer quando ele quiser”. E fui para casa. Meu amor por ele só aumentava a cada dia, porque ele era diferente e precisava de mim mais do que ninguém... 

Trocamos de médico, fomos para a Santa Casa aqui de Belém, conseguimos uma consulta por lá, pois falavam que seria o melhor hospital, com muitos especialistas. Triste ilusão. O médico de lá foi um monstro, teve a cara de pau de me dizer que o fato de o coração dele estar batendo não queria dizer nada, falou que tínhamos o direito de abortar e que levar essa gravidez até o final era perda de tempo. Tudo ao contrário do que o outro médico do segundo ultrassom tinha nos dito. Até disse que era só colocar uma pílula dentro do colo do útero que o bebê “nasceria espontaneamente”. Eu pensei: “Matar meu filho? Nem pensar”.

Fomos para casa aos prantos e eu falando para meu marido: “Não quero mais esse médico!”. Entramos com um pedido na ouvidoria e trocaram o médico, mas pouco adiantou. A outra médica nos tratou de maneira indiferente, mal escutava o coração dele, e eu percebia que não era verdadeira. Acho que ficaram com medo de um escândalo, e a gente com medo de que eles o maltratassem caso ele nascesse lá. Nos calamos, mas não desistimos...


Vivendo a gestação

O segundo médico do ultrassom tinha falado que o problema era com o bebê e não comigo, então eu poderia levar a gravidez até quando ele quisesse nascer, ou se desse algum problema a mais como aumento de liquido amniótico.

E assim foi nossa gravidez, fiquei ótima fisicamente, estava bem, não senti dores e nem engordei muito. Nosso Miguel crescia saudável, a não ser pelo machucado na cabeça, ele se desenvolvia bem, tinha soluços, se mexia quando nos escutava, chutava quando falávamos com ele. Amávamos nosso filho e para gente ele era perfeito do jeito dele, já que Deus nos fez únicos, não somos iguais a ninguém mais.

Nossa família nos deu apoio em todos os momentos, muitos acreditavam que poderia ser um erro médico, já que pensavam que anencefalia era dito como sem cérebro, não sabiam da acrania, sem crânio, que eram duas doenças, que uma causava a outra. Claro que nem eu sabia disso, foi aí que comecei as pesquisar. Passei a viver em função do Miguel, continuei a estudar tudo que pudesse dar a ele a possibilidade de viver um tempinho a mais. Em minhas pesquisas, claro que encontrei coisas horrendas, vídeos monstruosos, chamando essas anomalia de bebê sapo.

No começo chorei muito, foi muito chocante para a gente, mais encontrei um vídeo da Vitória, ufa, fiquei feliz, aquela luz no fim do túnel se acendeu. Fui procurando e achei o grupo de apoio no Facebook. Logo no meu primeiro contanto, me lembro que fui aceita e bem recebida, conheci várias histórias que me ajudaram muito. Então fui pesquisando tudo, li tantos blogs, tudo, tudo, tudo. Preparei minha família, também mostrei fotos de como era o machucado para caso Deus o deixasse ficar um pouco mais com a gente, ninguém se chocasse ao vê-lo.

Descobri também que pela cesariana havia mais chances de ele viver mais. E agora? Pelo SUS isso não seria possível, porque lá eles só fazem cesárea em último caso. Coloquei na cabeça que queria cesárea, não estava me importando com a dor, com a maior demora em me recuperar, com nada, meu filho era mais importante agora. Ele não pediu para nascer e nem tinha culpa do machucado, afinal, ninguém tinha culpa, Deus quis assim e pronto. Decidi: Quero cesárea. O difícil foi convencer meu marido a procurarmos mais um médico. Ele tinha medo de trocarmos de médico de novo e não acharmos outro, já que estava perto da chegada do Miguel.


Um anjo para nos ajudar

Oramos tanto para Deus mandar um anjo para nos ajudar na nossa jornada, então um dia me falaram de um hospital particular que atendia pelo SUS, o Beneficência Portuguesa. Marquei uma consulta particular, o meu marido foi comigo, meio contrariado mas foi, ele me apoiava mesmo não concordando. Ele nunca saiu do nosso lado nem um instante, e era esse médico o anjo que precisávamos.

Explicamos o caso, ele nos tratou super bem e disse que já tinha feito um parto de anencéfalo 4 anos atrás, mas que ele não viveu ao nascer. Então pediu todos os exames, fizemos tudo particular, e ele topou fazer minha cesárea. Mas antes tentou me convencer que o parto normal seria melhor pelo tempo de recuperação, que logo eu poderia engravidar de novo. Mas não quis, repeti que queria cesárea, pois se havia 1% de chance de meu bebê nascer vivo, era o que eu mais queria, vê-lo vivo por um minuto, pedia isso todos os dias a Deus. 

O médico marcou o nascimento dele para dia 30 de novembro de 2012, já estava tudo certo, o valor a ser pago pela disponibilidade dele, já que ele me internaria pelo SUS. Arrumamos as malas de menino e de menina, pois no último ultrassom o médico nos colocou essa dúvida, que nosso bebê poderia ser uma menina.


Uma noite especial e mágica

Então dia 27 veio o sinal, ligamos para o médico, ele mandou irmos para o hospital, tomei banho e me arrumei tranquila. Deus estava comigo me conformando o tempo todo, por isso a tranquilidade, tenho certeza. Avisamos a todos e fomos. Enquanto esperávamos o médico, ficamos olhando o céu por uma janela próxima. Imagine uma noite linda, uma lua cheia com uma estrela ao lado que parecia piscar para a gente e nos contemplava com sua beleza naquela noite tão especial e mágica...

O médico chegou, fez aquele exame de toque horrível, então disse: “Thais, ele já quer nascer mesmo, você não quer tentar um parto normal?", e mais uma vez tentou me convencer que seria melhor, mas como eu pensava que para o Miguel não seria nada melhor pelo machucado dele, disse: “Não doutor, cesárea mesmo, vamos lá”.

Entrei na sala super tranquila, orando e pedindo para ter pelo menos um minuto com ele. Falei com as enfermeiras para que quando ele nascesse elas colocassem a touquinha dele antes de me trazer, e assim foi, fiquei conversando com o médico o tempo todo, até que então ele disse: “É um menino”! “E ele está bem, doutor?”, e ele disse: “Na medida do possível está, só vai aqui rapidinho para tirar esse sangue do nariz dele e já vem para você conhecê-lo”. Depois de alguns minutos, lá veio ele, lindo.


Era o bebê mais lindo e perfeito do mundo, com 2.550 kg e 49 cm. Olhei para ele, chorei e disse: "Meu filho, mamãe te ama, tá?", e por incrível que pareça ele quis chorar como se me escutasse, e escutava, tenho certeza, ele me sentia, sentia todo meu amor, então fiquei com falta de ar de emoção e o levaram.

Pensei: "Obrigada, meu Deus, por esse momento!" O médico então me falou: "Thais, se tivesse sido parto normal, você teria problemas, por que sua placenta já estava descolando, por isso o Miguel tinha sangue no nariz e isso seria um risco grave para os dois, mas deu tudo certo". 

Fui para sala de recuperação e das 22h às 10h da manhã não dormi nem cochilei um só minuto. Fiquei lá esperando por notícias, mas eu sabia que se não tinham vindo falar nada era porque ele estava vivo na UTI. Meu marido o viu e tirou umas fotinhos escondido, já que lá eles não deixavam tirar fotos.

Ele viveu quase quatro dias, ficou na UTI sem aparelhos, só com uma sondinha para tomar o leite que tirei. Ele era forte e fazia jus ao seu nome, quando falávamos com ele, ele se agitava, mexia os pezinhos, queria levantar a cabeça, colocava o dedo na boca. Ele nos conhecia, ao contrário do que todos os médicos diziam, ele escutava e nos sentia. Foram os melhores dias da nossa vida. Não carregamos ele no colo enquanto ele estava vivo, mas só de saber que ele estava ali, já tinha valido toda a nossa batalha.

Foi muito importante viver tudo isso, ter a certeza de que fizemos o melhor e que fomos os melhores pais que poderíamos ter sido, com a ajuda de Deus.


O amor vence tudo

Ele viveu o tempo que Deus permitiu. Não pedi para Deus deixá-lo por mais tempo, não seria egoísta de querer que nosso filho ficasse sofrendo nesse mundo, onde existe tanta gente sem coração, onde só o que vale é o dinheiro e a beleza externa, e que muitos acham que são Deus para decidir entre viver ou morrer. 

Tudo o que vivemos, todas as dificuldades foram válidas. Conhecemos um mundo que não conhecíamos, somos diferentes e únicos. Deus quis assim, e só tenho a agradecer a ele por cada dia vivido e por todos os aprendizados.

O Miguel nos ensinou que O AMOR VENCE TUDO, vence o preconceito, o tempo, a distância e a saudade que ele nos deixou. Mas como sabemos que todos têm uma missão, que só Deus sabe o tempo que teremos que ficar aqui, então ninguém pode decidir por matar um ser que não te faz mal algum, que não põe em risco a sua própria vida, que não pediu para nascer e nem tem culpa de ter um machucado.

Com o nosso coração feliz e satisfeito continuamos a vida com a certeza de termos cumprido nossa missão com o maior amor que poderíamos sentir nesse mundo.



THAIS CANELAS e TIAGO CANELAS, pais de MIGUEL ARCANJO FURTADO CANELAS, que tem certidão de nascimento e foi um cidadão brasileiro por quase QUATRO dias, e agora é UM ANJO NO CÉU. 

de Belém, Pará

9 comentários:

  1. muito lindo a sua historia parabens pela sua coragem,

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  2. parabens voce foi uma mae vitoriosa merece todo meu respeito beijos no coraçao de voces dois

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  3. Todo o meu respeito!A vossa história está certamente escrita e contada na Céu.Que Amor Divino e exemplar o de vcs 3!O Miguel Arcanjo está com certeza com vcs ligado pelo elo desse eterno Amor maravilhoso.Parabéns pelo nascimento do vosso filho e pelo facto de serem pais de um ser por Deus iliminado.

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  4. LINDO LINDO LINDO! PARABENS MÃEZINHA, PAIZINHO E FAMILIA POR TEREM CUMPRIDO SUA MISSÃO!

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  5. Que linda história Thais e Thiago, o Miguel mereceu vocês como pais, parabéns pelo amor, pela perseverança, pela fé em Deus, com certeza Ele vai honrá-los com outros filhos, em nome de Jesus! Sempre acompanho o blog da Vitória, leio várias testemunhos e lendo o de vocês descobri que são de Belém, eu também, inclusive também tive um bebê especial, mas já está com o Senhor, minha doce Isabella brilha no céu! Descobri pela foto que conheço o Tiago do foto Vitória, alguns meses atrás revelei umas fotos da minha filha lá com ele, estava fazendo o álbum do primeiro aninho dela e ainda estava viva, fazendo as contas o Miguel ainda estava na barriga da mamãe Thais. Um forte abraço, que o Senhor nos ajude a superar essa perda, nossos filhos eram dEle e os tomou de volta para si.

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    1. oi Isabella realmente meu marido trabalhava lá e ele falo que lembra mesmo de você, temos que ter força ne Deus sabe o que faz... e obrigada, estamos esperando ansiosos a vontade de Deus pra mandar um irmãozinho pro miguel.. bjs fica com Deus.

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  6. Parabéns, que linda história de amor e respeito a vida, Deus abençoe vocês dois!

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  7. Parabéns Thais Pela sua coragem, Deus e maior e nos da força naquele momento a onde não conseguimos ver uma Luz, Sei como e dificil arruma um medico bom nesse caso, tive uma gravidez muito parecida com a sua sou do parana tive que mudar para minas gerais a onde consegui arruma um medico muito bom que foi um anjo na minha vida, Meu filho tambem se chama Miguel, e me chamo Thays tbm =D mais Deus e maior que tudo beijos fica com Deus

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