Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

David e Olga



Essa semana compartilhamos um relato de vida muito emocionante enviado do México pela Olga, que nos conta sobre a gestação do David, diagnosticado com anencefalia. Sua gestação foi muito tranquila, seu bebê nasceu de 42 semanas por meio de uma cesárea, e viveu por 4 dias e meio. Agradecemos à Olga e à Asociación Por la Vida y los Derechos Humanos, da Costa Rica, por esse relato tão especial:



Sou Olga Suarez, de Monterrey, em Nuevo Leon, no México. Atualmente tenho 30 anos, mas foi há 4 anos que eu tive meu primeiro filho, chamado David Isaías. Minha gravidez foi normal, a cada mês comparecíamos às consultas, ouvimos seu coraçãozinho desde a primeira vez, e o víamos se mexer. Ao chegar a 16ª semana, fomos a uma consulta de rotina para saber se seria menino ou menina.

O médico começou a ecografia e depois de muito observar, disse a mim e a meu esposo que lamentavelmente havia um problema: nosso bebê tinha anencefalia.

Eu já havia lido e inclusive visto fotos em um livro de embriologia, então sabia sobre o que ele estava falando, mas meu esposo não. O médico nos mencionou a ideia de interromper a gestação, logo depois voltou a sugerir essa possibilidade...claro que lhe disse que NÃO!!!

Eu não tinha direito de terminar com essa vida. Assim que saí, assinei e disse que continuaria até onde Deus quisesse... Depois, no outro dia consultei outro médico, esperando que tivessem se equivocado, mas não tinham. A notícia me derrubou, chorei durante todo esse dia até adormecer, esperando que acordasse no outro dia e tudo tivesse sido um sonho, um pesadelo, mas não era.

Eu estava trabalhando naquela época, mas eu parei trabalhar, eu não estava emocionalmente bem para enfrentar as pessoas, com suas palavras amáveis ​​a uma mulher grávida, e muito menos perguntas. Eu decidi cuidar de mim mesma e desfrutar cada dia com ele em meu ventre.

Somente pessoas próximas (muito poucas) sabiam o que estava acontecendo com o meu bebê. Eu decidi levar uma gravidez normal para mim mesma e para os olhos de todos os que não sabiam. Ele não merecia ser desprezado nem visto com pena por ninguém. Eu tentei não chorar demais por ele, não queria que ele sentisse o que eu estava sentindo. Eu falava com ele, cantava, teci uma manta para ele, lhe acariciava, desfrutava de todos os momentos e tratei de não pensar nos "e se"... 

Eu conheci pela internet as mães do Grupo de Apoyo Anencefalia (grupo de ajuda a mães de bebês com anencefalia, em espanhol) que passaram pelo que eu estava passando, e elas me apoiaram durante toda a minha gravidez e me deram segurança para o momento do parto.

Eu sofria em passar pela seção de bebês das lojas, ter que pensar em um túmulo e não em um berço, e preparar tudo. Claro, também pensava positivo, se eu teria a sorte de levá-lo para casa. Comprei algumas coisas, roupinhas, fraldas, meias, mamadeiras, produtos de higiene, etc.

Ao chegar a 38ª semana, ainda não sofria de dores nem nada, chegou a 40ª semana e continuava a não sentir nenhum incômodo nem contrações. O médico mencionou que se desejasse uma cesárea poderia agendar para mim. Mas, como com muitas mães, era meu primeiro bebê e eu desejava um parto natural. O médico sempre respeitou minha decisão, e assim chegamos à 41ª e à 42ª semana, e nesta última, o médico nos disse que já não podia esperar mais. Meu David ainda estava confortável dentro da mamãe, não tinha sofrimento fetal nem nada, mas já era o momento de dar à luz, e como não tive contrações, nem dilatei, nem a bolsa estourou, ele me agendou uma cesárea para uma terça-feira, 31 de marco de 2009.

Eu dei à luz em uma clínica particular. Meu marido estava ao nosso lado sempre. Trataram David com muito respeito, toda a minha família estava lá nos apoiando, tiramos muitas fotos, todos falaram com ele, o carregaram, ele foi muito amado.

Mencionei à pediatra o desejo de levá-lo para casa, já que ficaria apenas um dia e meio na clínica, mas ela insistiu que era melhor deixá-lo lá, que ele estaria em um lugar livre de poeira, e estaria bem atendido, para me dar tempo de melhorar da cesariana para poder cuidar dele. Embora tenha me doído muito deixá-lo lá, assim o fizemos. Ligávamos perguntando por ele quando estávamos em casa, e íamos visitá-lo de manhã e à tarde, tirei fotos e gravei vídeos desses momentos.

Ele foi um verdadeiro guerreiro, não ficou na incubadora, apenas o deixaram sob uma lâmpada para regular sua temperatura, e seus batimentos cardíacos eram monitorados em uma máquina. Muitas vezes, quando estávamos visitando ele, não escutávamos esse aparelho e meu coração dava um pulo, pensando o pior, mas era só porque ele se movimentava. Após quatro dias e meio, fomos visitá-lo à noite.

Desta vez, deixaram-me carregá-lo e alimentá-lo, eu o beijei o mais que pude, fiz vídeos, fotos, aproveitamos tanto, ele chorou, gritou, e nos olhava atento... Foi a última vez que o vimos vivo. Naquela noite nos chamaram do Hospital. Embora já pressentíssemos do que se tratava, foi ao chegar lá que nos informaram de sua partida. Nos levaram a um quarto, onde estava seu corpinho, nos disseram que podíamos vesti-lo, ficar com ele, nos despedirmos. Em seguida, vieram colocá-lo em seu caixãozinho, e o levaram com muito cuidado, o velamos durante toda a noite e no dia seguinte nós lhe dissemos adeus, que hoje eu vejo como um até logo...

Nosso filho nos encheu de amor, conhecê-lo nos encheu de paz, e saber que aceitamos a vontade de Deus deu-nos tranquilidade, uma tranquilidade que não teríamos sentido se tivéssemos dado fim a algo que não nos correspondia.

Dizer SIM À VIDA é algo que sempre defenderei. Hoje temos mais dois filhos, um homenzinho, Xavier Isaí, de 2 anos e 5 meses, e uma princesa, Yelena Aimeé, de 5 meses... Ainda sinto muita falta dele, mas sei que ele está junto ao nosso Pai, feliz e rodeado por muitos anjinhos que, como ele, partiram mais cedo, mas que deixaram uma marca profunda em nossos corações.

Te amo, David Isaías, e sempre te amarei.

Olga Suarez

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