Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

domingo, 26 de maio de 2013

Vitória, minha pequena cutucadora

Queridos amigos, hoje compartilhamos o relato da Lilian e sua filha Vitória, que recebeu o diagnóstico de anencefalia com 16 semanas gestacionais. Lilian, que também faz parte de nosso grupo de apoio, traz para nós recordações dessa gestação vivida nove anos atrás, de todo amor que teve por sua filha, a dor do diagnóstico, o preconceito que veio de todos os lados, e a antecipação do parto já aos oito meses devido a uma suspeita de pré-eclâmpsia.

Nos chama atenção, ainda, a falta de assistência, esclarecimento e humanização no atendimento médico ao longo de sua gestação devido ao diagnóstico de anencefalia. Uma situação que infelizmente ocorre com frequência e deixa marcas muito dolorosas no coração de inúmeras mães, que já enfrentam uma situação tão difícil pela perda iminente de um filho tão amado.

Agradecemos muito à Lilian por dividir conosco sua história.


Imagem ilustrativa para recordar a gestação da Vitória

O ano era 2003, éramos muito jovens. Marcos e eu resolvemos viver juntos. Apaixonados e cheios de planos, em um exame de rotina veio o resultado positivo. Sim, seríamos pais pela primeira vez. Fiquei tão feliz, comecei o enxoval, o berço, o carrinho... Enfim, nosso bebê merecia o melhor.


Com 8 semanas iniciei o pré-natal, mas foi a falta de uma precaução que toda grávida deveria ter antes de engravidar, tomando vitamina com ácido fólico, que causou a mal-formação no tubo neural de meu bebê.

Eu era saudável e o bebê era esperto e chutava minha barriga o tempo todo - pelo menos era o que eu pensava. Estava um pouco anêmica e perdi 10 quilos por causa dos enjoos que tinha o dia todo. 

Como estava sendo atendida pelo SUS, só tive direito a uma ultrassonografia com 16 semanas. Estava louca para saber o sexo do bebê. Fui com minha sobrinha, pois meu marido trabalhava. Entrei na sala e o vi pela primeira vez... Foi emocionante. Mas o médico ficou por mais de uma hora olhando para o monitor, e eu já estava tensa com seu silêncio.

Ele acendeu a luz, pediu uma água pra enfermeira e me mandou ficar calma. Perguntei se meu bebê havia morrido, e a sua resposta foi que era muito pior do que isso. Pensei: o que pode ser pior do que a morte?

Ele disse que era uma malformação grave, incompatível com a vida e que a natureza deveria tê-lo expulsado nos três primeiros meses com um aborto espontâneo. Meu chão caiu, eu não conseguia chorar ou gritar, pois ninguém podia me ajudar. O que eu fiz pra merecer isso? Não sei, mas aconteceu.

Quando fui ao meu obstetra pedir pra tentar salvar minha filhinha foi ainda pior. Além de confirmar tudo, ainda disse que meu bebê era um monstro deformado e que eu teria de induzir o aborto, pois não valeria a pena levar adiante o que não tinha mais jeito. Disse que não precisava mais de pré-natal e nos aconselhou a entrarmos com o pedido pra abortar legalmente. Fiz mais três exames e inúmeras consultas com médicos diferentes, todos com a mesma opinião dos anteriores.

Sentia que estava confusa, com medo e sendo pressionada a tomar uma decisão. Mas eu tinha fé e mesmo com todos os riscos levei adiante a gestação, contra tudo e contra todos, e sem assistência médica ou emocional. 

Todo mundo me dava suas opiniões diferentes, e a igreja também se colocou contra o aborto. Não sabia o que fazer. A curiosidade das pessoas era um capítulo a parte. Me faziam pensar que havia um E.T. em meu ventre, que era louca de não tirar ou então simplesmente demonstravam sentir pena da pobre mãe de um "ser"... Foi horrível.

Foi uma gravidez difícil, passava dias tomando soro por causa dos vômitos e a pressão que oscilava cada vez mais. Mas essas complicações nada tinham a ver com a condição de minha filha, pois também ocorreram na gestação que tive, anos depois, de minha filha Giovanna, que nasceu saudável.

Eu amava minha pequena cutucadora que me acordava todas as manhãs com seus chutes fortes. Conversava com ela, lia histórias e a desejava em meus braços, nem que fosse por apenas um segundo. Como poderia matar minha própria filha?

Com aproximadamente 34 semanas, minha pressão arterial aumentou muito e o excesso de liquido amniótico estava comprimindo meus órgãos. Fui levada para uma última ultra antes de ser internada com suspeita de pré-eclâmpsia. Como o diagnóstico de anencefalia foi confirmado mais uma vez, a médica pressionou meu marido, fazendo-o escolher me salvar pois a criança morreria de qualquer jeito. Deu ordens expressas para não vermos a Vitória, pois ela era um monstro deformado. Meu Deus, como me doía ouvir coisas tão feias de minha cutucadora... tive momentos de choro, de raiva, ansiedade, negação, mas nunca aceitação.

Não era justo, quantas mães têm seus filhos e os jogam no lixo ou simplesmente abortam... Eu não podia aceitar, por que era comigo?

O parto normal começou a ser induzido em uma quarta-feira, com soros e remédios por baixo pra dar contrações antes que fosse tarde. Nesse período eu não dormia, não falava, não comia, apenas chorava implorando a Deus para ter misericórdia de mim. Me senti sozinha, extremamente desamparada, enquanto observava as mulheres chegando com as dores, mas saindo sorrindo com seus filhos no colo. Eu nem isso teria. Não tenho palavras pra expressar meu sofrimento.

Depois de quatro dias agonizantes, a Vitória nasceu por fórceps com cerca de 1.500kg e 34 cm, no dia 13/06/2004. Viveu por 10 minutos, que não presenciei. Estava cansada demais, no limite de minhas forças, passei pelo vale da sombra da morte, mas Deus me resgatou e levou para si o meu anjinho.

Eu a olhei rapidamente e ela era linda, com olhos azuis, bochechas rosadas e bem branquinha. Meus olhos se embaçaram pelas lágrimas, então fui embora sem olhar para trás. Meu marido levou seu caixãozinho branco, e eu nem pude me despedir, pois estava no hospital.

MINHA PEQUENA CUTUCADORA VITÓRIA VIVE EM MEU CORAÇÃO E NO POUCO TEMPO QUE TIVE COM ELA, APRENDI QUE NEM TUDO QUE A GENTE QUER É A VONTADE DE DEUS.

Não tenho fotos e nem lembranças, a não ser a lembrança em meu coração daquele lindo anjo que passou pela minha vida. Se valeu a pena? Claro, mas se pudesse voltar no tempo, não teria encurtado sua vida. Gostaria de ter tentado estender um pouco mais a gravidez, e de ter abraçado ou beijado ela em um momento de despedida ... Mas sei que ela encontrou a paz e eu também.

Lilian, Giovanna e Marcos
de Cruzeiro, São Paulo

Um comentário:

  1. Muito tocante esse depoimento...imagino o quanto tenha sido difícil passar por momentos tão agoniantes.Mas o amor de mãe,não tem explicação!Essa é a maior prova de que nos tornamos mães a partir do momento em que geramos um ser em nossos ventres e os amamos incondicionalmente.Uma coisa é certa, a Vitória sempre soube que era e é muito amada!

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