Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Laís, uma estrela que devolvi a Deus

Hoje compartilhamos o depoimento da Andréia, que nos conta a sua história com a Laís. Uma história vivida com muita coragem, desafios, luta por atendimento digno ao longo de uma gestação que terminou prematuramente mas foi vivida em cada momento com alegria e amor.


Imagem: arquivo pessoal da família



Eu sou a Andréia, mãe de uma linda estrelinha chamada Laís. Grávida de 12 semanas, fiz meu primeiro exame ultrassom, onde o médico não conseguiu fazer todas as medidas do meu bebê. Quando chegou na parte de medir a cabecinha, começou o pior pesadelo da minha vida. Ele tentou várias vezes, porém não conseguia medir o crânio do bebê. Eu já estava angustiada sem saber o que estava acontecendo, quando ele pediu que eu chamasse alguém da família para receber o diagnóstico comigo. Chamei meu pai e juntos ouvimos o médico nos dizer que o bebê não possuía cérebro, que eu poderia entrar na justiça para tirar meu bebê ou procurar outra clínica para comprovar o resultado.


Na mesma hora saímos em busca de outra clínica que nos atendesse, na esperança de um diagnóstico errado. O médico que realizou o segundo ultrassom disse que não sabia o que tinha acontecido, não sabia diagnosticar, só disse que o bebê não estava bem. Começamos a fazer muitas perguntas que o médico não  sabia responder. Foi nesse momento que começamos com uma confusão de sentimentos de dor, de tristeza, de esperança, incapacidade. Começou um sofrimento horrível, tínhamos que decidir entre interromper ou seguir adiante. 

A princípio, na verdade, não sabíamos nem que poderíamos prosseguir, só fomos informados que eu teria que interromper, porém ninguém nos disse como e nem aonde. No primeiro momento busquei 5 médicos em 2 dias e todos diziam que tinha que tirar o bebê, e mais nada de informações concretas.

Até que então busquei mais informações na internet e descobri que o caso não era tão raro assim. Que não se tratava de um bebê considerado sem vida, já que existiam bebês que viveram por dias, meses e até anos após nascer.

Eu e meu pai conversamos muito e resolvemos entregar nas mãos de DEUS, já que acreditamos que existe um lado espiritual em nossas vidas, acreditamos que até último dia tudo poderia mudar. Resolvemos que esse bebê era nosso e não iríamos descartá-lo em um lixo de hospital. Continuamos o pré-natal, pedindo a DEUS que mudasse essa situação. Mas, que se não fosse da vontade dele me dar esse milagre, que Ele preparasse o meu coração para o último dia, quando eu colocasse minha filha em suas mãos novamente, que eu não sofresse tanto e nem entrasse em depressão.

Lembranças da gestação da Laís
Imagens: arquivo pessoal da família

Seguimos com a gestação, que foi na maior parte do tempo tranquila. Trabalhei normalmente até o finalzinho, quando já sentia muitas dores pelo aumento do líquido aminiótico, o que me levou a ter um parto prematuro. A Laís nasceu de 32 semanas, com 1.700kg e 37 cm. Nasceu de parto normal pélvico, pois estava sentada. Sabemos que tudo o que poderíamos ter feito por ela nós fizemos, que hoje ela vive em nosso pensamento, em nosso coração, nas nossas lembranças. Vive... e viverá conosco na vida Eterna. 



Como a Laís nasceu prematuramente devido ao aumento de líquido amniótico, fizemos algumas perguntas adicionais à Andréia sobre esses detalhes da sua gestação:

Grupo Vida - Andréia, como foi quando que você começou a ter aumento de líquido amniótico (polidrâmnio)? Lembro que você comentou que sentiu muita dor e também teve dificuldade em ser bem atendida no pronto-socorro, como você se sentiu nesses momentos?

Com 28 semanas, eu tive algumas gotículas de sangramento, então procurei o hospital e fiz um ultrassom, que acusou que eu estava com aumento do liquido. Porém não me informaram nada mais além que isso. O médico do hospital (inclusive particular da Unimed) disse que me daria 7 dias de repouso pelo sangramento e não pelo líquido. Levei o atestado até o médico da empresa onde trabalho, que recusou o documento dizendo que eu teria que levar até um ginecologista. O ginecologista nada se importou e nada me disse. Falou que era comum nestes casos e que estava dentro da normalidade. Diminuiu meu atestado para 5 dias e ainda afirmou que minhas dores eram dor de barriga, que deveriam ser gazes! 

Muito espantada pelo descaso, procurei outra médica e fiz uma consulta particular (sem usar a Unimed e nem o SUS). Ela fez exame de toque e disse que eu já estava com um dedo de dilatação. Logo eu estaria dando à luz. Me prescreveu Buscopan e disse que se o meu líquido continuasse a aumentar eu correria  mais riscos, por isso, a partir daquele momento teríamos que fazer um acompanhamento semanal. Ela me aconselhou a já sair de licença maternidade. Não conseguia andar, nem sentar e muito menos dormir direito. As dores foram aumentando, era uma dor logo abaixo do peito, ou seja, na parte superior da barriga. Nos últimos 3 dias engordei 1 quilo, que na verdade era apenas líquido. No último dia, senti muita indisposição e comecei a ter dores de contração. Cheguei ao hospital com 8 dedos de dilatação. 

Fiquei feliz pois imaginei que com 8 cm de dilatação, logo estaria vendo minha bebê. Mas fiquei 12 horas no hospital e nada. Senti que a médica não queria fazer meu parto e estava esperando a troca de plantão. As dores da contração não eram tão fortes quanto a de um bebê normal, pois o bebê anencéfalo costuma ser muito pequeno, mas quando chegou a hora eu já estava muita esgotada. 

Durante a noite, a cada nova enfermeira que entrava eu implorava: quero ver meu bebê, por favor, tira uma foto do meu bebê... Quando ela nasceu, a pediatra perguntou se era para levá-la até a UTI ou deixá-la comigo. Eu queria muito ficar com ela, ela era linda demais, mas queria oferecer a ela mais oportunidades de sobreviver, então pedi a médica que a levasse. Mas então ela me disse: "O coração dela já está batendo bem fraquinho"... 


Conhecendo e se despedindo

Eu fui para a sala de observação e apaguei por alguns minutos. Quando acordei, pensei: ninguém veio me dizer nada, então ela ainda está viva. Comecei a pedir para vê-la. Implorei muito para vê-la. Então a enfermeira me disse: Ela tá linda, a roupinha é linda. Entendi que ela já havia partido, pois na UTI não se coloca roupinha nos bebês.

Então pedi para vê-la. Me trouxeram ela, e eu senti que valeu a pena todos aqueles momentos, pois ela era linda. Queria eternizar aquele momento pois sabia que jamais teria minha pequena de volta... Aquele anjo já havia partido, era apenas a carne, a matéria do seu corpo, o qual enchi de beijinhos. Aquele corpinho frágil que era um pedaço de mim, que fez festa no meu ventre, que se mexia tanto... 

Quando eu conversava com ela durante a gravidez, pude perceber o dia em que ela mais se mexeu, feliz, sambando na minha barriga... e o dia em que se mexeu mais lentamente, já me dizendo adeus. 


Recuperação

Minha recuperação foi fácil pois tive parto normal, levei poucos pontos e em 10 dias eu já estava muito bem. Lembro da Laís todos os dias e sonho com ela praticamente todos os dias também... Tenho seu cobertorzinho guardado e olho sua foto todos os dias.


Aprendizado

Laís me ensinou muito e me fez enxergar outro mundo. Aprendi que eu não deveria mais seguir a minha vida sozinha, que eu precisava de um companheiro, pois é triste demais não ter em quem se abraçar para chorar... Aprendi com a Laís que cada criança representa uma joia preciosa. Cada criança é uma vida que precisa ser muito zelada, principalmente as crianças especiais, que cada desenvolvimento alcançado é uma grande vitória. 

Cada vez que minha Laís se mexia eu sentia que ela me agradecia por ter respeitado sua vida, eu sentia como se fosse um grande "Te amo". É difícil descrever todos os sentimentos, as lágrimas caem sem controle... mas o último sentimento é de paz, porque eu fiz tudo, tudo que eu pude...

Lidando com a dor e a saudade

Todo mundo me pergunta por que, mesmo sabendo do problema da minha filha, eu aparentava estar feliz. Respondo que simplesmente queria o melhor para ela e que havia sim uma vida dentro de mim que era muito amada. Eu estava feliz porque minha filha não precisava passar por provações, a missão dela era apenas nascer e ir para o céu. Ela foi digna de ganhar o céu mais cedo, me alegrava ser mãe de um anjo puro e sem pecados, ao qual DEUS escolheu... Querer isso, é claro que eu não queria, mas DEUS me ensinou a aceitar a sua vontade e confiar nele. Se eu tinha que passar por isso, passei de cabeça erguida. 

Levar o problema sorrindo alivia o fardo, e alivia a dor de quem está vivenciando tudo conosco. Tudo é aprendizado, a dor está aqui mas sou eu que escolho sofrer ou não. 

Laís Búrigo, uma escolhida por DEUS para viver no paraíso, cumpriu sua missão com menos de 15 minutos.  Mas para mim ela não viveu apenas 15 min, foram sete meses e meio em que o coração dela bateu... e hoje é a alma que vive. Ela foi e sempre será muito amada.


Andréia Búrigo
de Cocal do Sul, Santa Catarina

4 comentários:

  1. Toda vez que leio ou que sei de alguma história parecida, eu choro...
    por que hoje sendo mãe, consigo entender tal amor.
    E admiro, de verdade a força dessas mães, só amor mesmo pra fazer isso com a gente.
    Que a Laís esteja linda lá no céu com o Senhor Jesus...
    E que nós nunca -percamos a esperança de um dia encontrá-la.
    Meu abraço.

    ResponderExcluir
  2. Olá Andreia, lendo a sua história, parece que estou revivendo a minha, que aconteceu há exatamente oito meses atrás. Também tive uma gravidez de um bebê com acrania e anencefalia e ele faleceu minutos depois do parto.Saiba que vc é uma pessoa muito especial, pois Deus te deu o conforto. Sofri muito também, principalmente com o descaso dos médicos da Unimed. Ninguém queria assumir a responsabilidade, ninguém queria dar palpite. Também sofri com o polidrâmnio e os médicos também não levaram s sério as minhas queixas de dores.A impressão que eu tenho é que muitos desconhecem a doença ou não sabem lidar com um doente terminal.Mas pode ter certeza de que a sua escolha foi a mais sensata, a melhor possível. Pois vc levou a sua gravidez com dignidade. Eu sofri muito também, mas compensou quando pude olhar o rostinho do meu bebê. Hoje, oito meses depois estou grávida novamente, de quatro meses. Estou esperando outro menino e graças a Deus está tudo bem.São dois bebês diferentes, mas a sensação que eu tenho é de Deus me devolvendo meu amado filho, tão querido, tão esperado.Saiba que sua laís está agora, compondo um lindo coral de anjinhos lá no céu, e lá não há morte, nem choro, nem dor, nem aflições, nem enfermidade alguma.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Flor de Lis, muito obrigada pela sua mensagem e por dividir conosco também um pouco de sua história. Não é preciso muitas palavras para entendermos esse sentimentos de amor tão profundo por nossos filhos. Parabéns pelo seu anjinho, e parabéns por esse novo filho que Deus está te enviando!
      Se você quiser estar conosco em nosso grupo de apoio no Facebook, é um espaço onde podemos dividir nossas experiências, nos ajudar e apoiar outras mães que estão esperando seus bebês com acrania e anencefalia. (esse é o endereço https://www.facebook.com/groups/acraniaeanencefalia)
      Se desejar também dividir sua história com mais detalhes publicamente aqui neste blog, é só me enviar um e-mail (joanaschmitz@yahoo.com.br), acredito que cada relato, feito com toda a sinceridade, é extremamente importante para que haja mais conhecimento sobre essa malformação e sobre como ajudar a gestante e sua família.
      um forte abraço

      Excluir
    2. Muito obrigada.. parabéns pelo seu bebeee.. Que Deus abençoe muito vcs... abraçãooo

      Excluir

Pedimos sua compreensão e cuidado ao postar um comentário.
-> Você é bem-vindo a este blog, ainda que tenha valores ou pensamentos diferentes dos aqui apresentados.
-> No entanto, mensagens que tenham conteúdo ofensivo e desrespeitoso não serão aceitas, em atitude de respeito para com as famílias que aqui compartilham suas histórias, e para com todas as crianças que aqui são homenageadas
-> Nossa intenção não é hostilizar quem tenha uma visão ou postura diferentes diante dos temas aqui abordados, portanto não serão aceitos comentários agressivos de qualquer tipo.
-> Se preferir, contate-nos pelo e-mail acrania.anencefalia@yahoo.com.br
Muito obrigada!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...