Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

História de Kellen e Maria Eduarda

Compartilhamos essa semana a história da Kellen Reis e sua filha Maria Eduarda, diagnosticada com anencefalia aos cinco meses de gestação. Kellen conta sua experiência de maternidade em uma entrevista dada à TV Aparecida, e também para uma reportagem da TV Canção Nova, ambas em 2012. Em suas palavras, podemos sentir a grande emoção e profundo amor, saudade e aprendizados que a pequena Duda deixou com seus pais, que com ela conviveram por nove meses de gestação e mais três dias de vida fora do útero.

Abaixo, mais um relato escrito pela mãe em seu blog Mães Escolhidas a Dedo.










Quando a anencefalia entrou na minha vida e no meu vocabulário


Quando alcançava os cinco meses de gestação, tive que fazer um segundo exame de ultrassonografia, a pedido da minha obstetra, apenas pra saber o sexo do bebê e, claro, confirmar se estava tudo bem, sob nenhuma suspeita. Fomos em comitiva para a clínica radiológica. Meu sogro e minha mãe estavam tão curiosos quanto o meu marido e eu. Era uma menina. Comemoramos sozinhos na sala, e eu nem percebi que a médica que havia feito o exame nos deixara pra conversar com nossos pais. Quando perguntei se estava tudo bem com o bebê, a resposta veio em tom baixo, apenas um sim. Mal sabia que por trás daquela afirmação existiam tantas dúvidas.

Quando retornamos de viagem de lua de mel, passamos correndo pra pegar o resultado do exame. Era um fim de tarde, véspera de feriado. Quando terminei de ler o resultado, entrei em choque e gritei pro meu marido ir direto pro consultório. Minha médica, que era do SUS, já tinha ido embora. Uma outra, que estava apenas anotando umas fichas, me atendeu. E como quem dá uma receita de bolo, me cuspiu o significado da palavra anencefalia. Mas como tempo de preparo da receita, a resposta foi: "Se eu fosse você, pedia na justiça o direito de abortar. Não há o que fazer! Pode ser melhor pra você!"

Um buraco se abriu embaixo dos meus pés, mas eu não conseguia nem sequer cair dentro dele. Parecia estar em um outro mundo, ou em um pesadelo que teimava em não acabar. Acho que nunca chorei tanto na minha vida... O que eu só percebi mais tarde, com o passar do tempo, foi que meu choro não se destinava apenas à minha dor, mas também à rigidez e desprezo pela vida, inclusos nas palavras daquela médica.

Minha família já sabia. Era disso que falavam meu sogro, minha mãe e a médica que fez minha ultrassom enquanto eu e meu marido comemorávamos a descoberta de que Maria Eduarda estava à caminho. Depois de um longo abraço dos meus irmãos e dos meus pais, tentei me recolher nos braços do meu marido que também sofria, e tivemos a primeira noite de uma nova fase da nossa vida.

Abortar? Como assim abortar? E interromper a vida da minha filha? Quem aquela médica pensava que era pra me dizer o que era o melhor a fazer? Foram essas as perguntas que me fiz mesmo depois de me acalmar, com o diagnóstico da síndrome da minha filha ainda entalado na garganta. Eu já me sentia mãe, desde antes de confirmar a gravidez. Como poderia pensar em uma coisa dessas? Resolvi apenas continuar o ciclo natural das coisas, da vida. Não houve dúvida, nem minha nem do meu marido. Aguentaríamos o quanto a Duda ou Madú aguentasse. E assim levamos até a 39ª semana, quando aconteceu o parto. E não me arrependo!

Pude ser mãe daquele bebezinho durante todo esse período. Conversava com ela o dia todo. A acordava quando eu acordava e a colocava pra dormir quando ia pra cama. Avisava quando estávamos indo passear e mostrava a ela todo o carinho que ela recebia quando chegava uma visita, na maioria das vezes com um presente na mão.

Sim, ganhei muitos presentes! Um enxoval quase completo, com direito à kit de berço, fraldas, roupas e tudo mais. E não me sentia mal com isso. Eu acreditava e continuo acreditando em milagres, mas em todas as minhas mais dolorosas orações não sentia que era vontade Deus curá-la para que eu pudesse tê-la comigo por mais tempo. Então passei a ver o milagre de outra maneira. Ele foi acontecendo cada dia em que a Maria Eduarda continuava conosco.

Contar nossa história é uma maneira de retribuir a toda alegria que minha filha me trouxe. Pois ela me trouxe várias. Quando reagia chutando minha barriga em nossas conversas, quando mexia lá dentro, como se quisesse me afirmar que ainda estava lá, comigo! Quando chorou ao nascer, mesmo sem ter condições para isso, quando segurou meu dedo com todos os da mãozinha dela, como se não quisesse que eu fosse embora. Quando resistiu fortemente por três dias, permitindo que eu pudesse dizer e transmitir a ela o quanto eu a amava.

Talvez seja difícil para você compreender como posso ver isso como alegrias. Mas hoje tenho condições de afirmar isso, por entender que esse foi o plano de Deus na minha vida, e que Ele poderia tê-la levado ainda dentro da minha barriga, mas olha o quanto mais me foi permitido!

Se às vezes me pego chorando, é de saudade, uma saudade natural, normal, sem culpa. Uma saudade de coisas que não pude fazer, como trocar a fralda, dar banho, amamentar, pegar no colo... mas também uma saudade das poucas coisas boas que pude fazer.

Já se passaram 3 anos desde que ela nasceu. E seu nascimento foi o que me fez sentir o maior orgulho de mim mesma, por ter conseguido gerar e carregar em meu ventre um ser tão especial e puro. Ouvi-la chorar ao sair da minha barriga foi para mim o mesmo que um até mais. Eu sabia que enquanto a pudesse carregar, viva ela estaria.

Ainda lembro de tê-la beijado, de ter dito que a amava exatamente do jeitinho que ela era. Foi o único contato direto. Meus lábios e aquela pequenina face toda molhada e ainda suja. Mas o suficiente pra transmitir a ela que eu estava ali. Foram três dias. Três dias de luta pela vida, que teimava em não ficar, três dias de desespero por saber que logo ela iria, e três dias intensos em que tentei ser toda mãe de uma vida. Até que, depois de cumprir sua missão, se despediu.

Tenho a certeza de que ela intercede por esta família que a ama e sabe que um dia nos encontraremos. Maria Eduarda dos Reis Henrique, a mamãe e o papai te amam muito!


Conheça o blog escrito pela Kellen: Mães escolhidas a dedo

3 comentários:

  1. Li seu comentario e chorei muito...ha 23 anos atras tive um menino com anencefalia e na época sem informação alguma optei pelo aborto...só Deus e eu sabe como me arrependo de não dar a chance do meu Caio Vinicius ver a luz do dia, tinha 16 anos na época, pressão de toda familia, me vi totalmente acuada com a gravidez e com a má formação do meu bb, o médico que me atendeu na época disse que ele nào sobreviveria fora do utero,hj fico vendo e lendo depoimentos de tantas mães que passaram por isso e fico pensando muito no que eu fiz. Espero que um dia meu Caio me perdoe por ter feito isso. Fiquem com Deus e forças!!!

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    1. Querida Noemi, sinto muito por toda a sua dor pela ma-formação de seu bebê a toda a dor que o aborto lhe causou. Temos em nosso grupo de apoio algumas mães que também optaram por interromper a gestação e compartilham desses sentimentos, se você quiser estar conosco, para dividir experiências e sentimentos sobre seu bebê, saiba que será bem-vinda! esse é nosso endereço: https://www.facebook.com/groups/acraniaeanencefalia/
      Se você desejar também pode enviar um relato mais detalhado de sua história para publicarmos aqui no blog, para podermos ajudar outras mães que também recebem esse diagnóstico para seus bebês, quanto mais informações e relatos mais poderemos ajudar outras famílias.
      Um abraço carinhoso e fique com Deus!

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  2. Noemi, não conheço vc, mas Deus nosso pai a conhece bem, se vc se arrependeu aceite então o perdão de Deus na sua vida, Ele te perdoa não te julga...A Bíblia diz que Ele ( Jesus) é fiel e justo para perdoar aqueles que se arrependem, não sofra mais pois seu bb está nos braços do Pai, ele vive em Cristo...Sua historia com certeza Deus vai usar para orientar e encorajar outras mães...Fica com Deus!

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