Importante: o conteúdo aqui apresentado de modo algum pretende substituir o aconselhamento médico ao longo da gestação, mas sim oferecer informações complementares baseadas em pesquisas e experiências pessoais. O acompanhamento pré-natal é imprescindível durante a gestação, preferencialmente com um médico de sua confiança.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Meu anjo Gael!!!!

 

Por vezes fiquei pensando como seria escrever o meu relato depois de passar noites em claro lendo e relendo tantas histórias de amor, de como seria a dor de relatar tudo. Hoje escrevo com dor sim, mas com um amor maior do que qualquer outro sentimento, um amor de uma mãe órfã do seu primeiro filho, mas com o coração e a cabeça tranquilos por ter feito a vontade de Deus.

Desde que casamos em 2010, nunca colocamos uma data para ter um filho. Resolvemos que esperaríamos um pouco e só. Após 2 anos de casados, começamos a pensar no assunto, mas a perda inesperada do emprego do Flávio e grandes perdas de entes queridos fizeram nossos planos serem adiados.

Final de 2013, após a vida estar estruturada novamente, decidimos tentar. Fomos ao médico, fizemos exames, tomei ácido fólico por meses, emagreci um pouco, até que no dia 17/06/14, no meio do jogo do Brasil, veio a notícia, estava grávida!!! Uma explosão de sentimentos nunca experimentados, chorava, ria, eu mal podia acreditar. No exato momento eu já disse que era um menino, era uma certeza absurda! No outro dia já fomos para casa dos meus pais contar a novidade! Aguardei o primeiro ultrassom para contar para o restante da família e os amigos. Apesar de toda a felicidade, eu tinha uma certa cautela com tudo, era como se algo me dissesse para manter os pés no chão.

Seguia como o pré-natal normalmente, até que fui fazer o ultrassom de translucência nucal, que marquei no limite da data para poder tentar ver o sexo. No dia 19/08/14 saí mais cedo do trabalho, fui buscar meu marido, sempre presente em todas as consultas e exames. e fomos para a clínica.

Eu super falante durante o exame, perguntando se estava tudo bem, encantada com tantas mexidas que meu anjo dava dentro de mim, e a médica num silêncio absurdo e remexendo na minha barriga sem parar. Até o momento que ela disse: “Você me perguntou se está tudo bem, mas não está.” Nesse momento eu imaginei que ela falaria sobre Down, que era esse o “problema” do meu bebê, mas o que ela disse foi que meu bebê tinha acrania, que seu crânio não tinha se formado e não formaria mais, que ele não ia sobreviver. A partir desse momento parecia que meu mundo tinha acabado. Eu chorava e o Flávio fazia algumas perguntas que eu não escutava. Eu só me lembro dela falar de uma clínica em São Paulo que poderia fazer a interrupção da gravidez, mas que era melhor eu falar com meu médico. Só perguntei se era realmente um menino e ela disse que era 80% de chance que sim. Ele já tinha nome, Gael. Pediu pra eu sair da sala e aguardar o laudo.

Saí da clínica em desespero e liguei para meu médico, que não estava e só me atenderia no outro dia. Eu precisava falar com alguém. Liguei pra minha irmã e minha mãe. No outro dia fui ao médico com minha mãe e meu marido e a primeira coisa que o médico disse foi em interromper a gravidez, que era o mais correto a fazer. No mesmo instante eu disse não, mas ele me pediu pra pensar e qualquer coisa ligar para ele. 

Passei mais uma noite em claro quando encontrei o blog da Mariana, filha do Rodrigo e da Lucia. Enviei um e-mail e o Rodrigo me respondeu e me adicionou ao grupo. Foi uma das melhores coisas que me aconteceu.

Os dias foram passando, segui com o pré-natal, meu médico entendeu minha decisão e me tratou normalmente. Perguntei se ele queria continuar me atendendo e ele disse que estaria comigo até o fim, o que foi um alívio para mim.

Pessoas se afastaram, de outras eu me afastei por perceber que ficavam desconfortáveis com nossa presença (eu nunca escondi a situação), outros se aproximaram. Preconceitos, discriminação, questionamentos, esses se fizeram presentes. Médicos me perguntando por que tinha ido fazer ultrassom, olhavam com cara de pena, perguntavam se eu realmente sabia o significado do diagnóstico. Pessoas insensíveis e incapazes de entender o amor na sua forma mais plena e pura, sem rótulos, porque pra nós nosso Gael era perfeito, porque ele é nosso filho pra sempre.

No dia 01/10/14, numa consulta, após relatar algumas situações, meu médico resolveu me afastar do trabalho e tenho que dizer que isso fez muito bem pra nós, pois a partir daquele momento eu convivia com quem eu queria e me entendia. Tive o tempo perfeito, só eu e meu filho, de sentir ele mexer, falar com ele, cantar, tudo isso fez os meus melhores dias, pude senti-lo na plenitude, momentos só meu e dele e que nunca vou esquecer.

Com 21 semanas foi detectada a anencefalia (involução da acrania, sabíamos que seria assim) e com 25 semanas o polidrâmnio.

Fiz um chá de bebê beneficente lindo em nome do Gael, com a presença e ajuda de muitas pessoas. O ultrassom 3D foi lindo, ver seu rostinho e corpinho foi mais que emocionante. Saí com minha mãe e irmã e compramos suas roupinhas (não muitas) e ganhamos muitas coisas também. Fiz sua malinha. Ou seja, fizemos tudo da melhor maneira possível, mas com os pés no chão. Nossa sessão de fotos estava marcada, mas não deu tempo de fazer. Somente o quartinho que optamos por não fazer.

Nessa altura já estava muito cansada, com dores, no dia 24/11/14 fui ao PS e o médico de plantão disse que estava tudo bem, que as dores eram por conta do líquido aumentado. Passei a semana toda com dor e na sexta procurei o meu médico, fiz exames e fiquei no hospital porque meu rim direito estava dilatado, causando cólicas, devido ao líquido também.

No domingo, dia 30/11/14, já acordei com muitas dores e fui para o hospital por volta das 14h. Chegando lá já não conseguia andar com dores e perguntei quem era o médico de plantão - por Deus era o meu médico e foi um grande alívio. Quando ele me viu, eu disse que achava que era o rim, ele colocou a mão na minha barriga e disse? “você está em trabalho de parto”. Não contive as lágrimas. Ele me examinou e eu estava com 4cm de dilatação e sem o tampão. Fui internada e todas as manobras para retardar o TP foram feitas. Fiquei na cama de ponta cabeça sem poder levantar pra nada, absolutamente nada, com uma medicação caríssima (todos enfatizavam isso no hospital) e que supostamente funciona para inibir o TP. Demoraria 48h para “correr na veia”, mas comigo não “correu” nem 24h.

Por volta das 17h30min do dia 01/12/14 as dores voltaram com força total e meu médico foi chamado. Naquele momento eu percebi que não daria mais, a minha vontade de fazer força era muito grande. Meu médico chegou rápido e o Flávio também (minha mãe tinha passado o dia comigo). Eu já estava com dilatação total e nada mais poderia ser feito. Uma cesárea já não tinha como ser feita ,como eram os planos do médico no início, apesar do meu sonho ser o parto normal. O Gael ia nascer! Meu médico, num momento muito humano e de extrema sensibilidade, sentou ao meu lado e me explicou a situação, dizendo que sabíamos que com o tempo normal de gestação já seria muito difícil e no momento que estávamos seria ainda mais difícil, me perguntou o que eu queria pedir naquele momento. Eu pedi para ele fazer de tudo para tirar meu filho vivo, e ele fez tudo que pôde!

Entrei na sala de parto às 19h03min (lembro do relógio grande que tinha na parede) e às 19h23min o Gael nasceu, já como anjo, ele não conseguiu respirar fora de mim. Imediatamente levaram ele pra mim, já com a cabecinha coberta, pois foi um pedido meu. Lindo meu anjo, perfeito, eu não tinha forças, mas me lembro de tudo, na sala de recuperação me levaram ele novamente, ai pude pegá-lo, embalá-lo nos meus braços, abraçar, beijar e dizer o quanto eu o amo!

Não tenho o que falar da equipe médica, foram muito bons comigo, eu tinha muito medo, mas deu tudo certo. Meu médico em particular foi e continua sendo incrível comigo.

Pude acompanhar seu sepultamento no outro dia pela manhã em meio a muitas lágrimas e pessoas queridas. Não quis velório. Flávio e minha mãe o viram ainda no hospital, meu pai, minhas irmãs e cunhados puderam vê-lo na funerária, achei que era o suficiente. Eu preferi não guardar algumas imagens, então não quis vê-lo no caixãozinho, como também não quis ver sua cabecinha. Guardei sua imagem doce, seu rostinho perfeito embalado nos meus braços!

Só tenho a agradecer a Deus que me deu forças, me deu todo o necessário para cumprir minha missão. Agradeço ao grupo, todas as mamães de anjo que sempre me animaram e acolheram carinhosamente, onde eu senti que não estava sozinha, que não existe o “por que eu?”, pois são centenas de outras famílias que passaram ou passam o mesmo. A toda minha família, toda mesmo! Aos amigos que eu sabia que nunca nos deixariam e principalmente aqueles que se aproximaram ainda mais, a todas as pessoas que eu nem conheço (mas espero um dia conhecer) que estavam o tempo todo em oração por nós e também a minha psicóloga que me acompanhou e continua me acompanhando.

Não condeno ninguém que tenha optado por interromper a gravidez, mas se eu puder dar um conselho pra alguém que passa por isso: Tudo vale a pena pra sentir, independentemente do tempo, o maior amor do mundo que é ser Mãe de um Anjo!
Hoje sinto falta de suas mexidas, das nossas conversas, de nossos momentos mais lindos, sinto falta também de tudo que não pude viver, os choros, os sorrisos, as mamadas e tudo aquilo que uma mãe vive! Um filho é único e nunca será substituído.

Muitos me dizem que fui guerreira, mas eu digo que não, não existe guerreiro sem seu mestre, o meu foi Jesus, só fui seu instrumento! O milagre aconteceu, transformou e continua transformando nossas vidas e a vida de muita gente e se chama Gael!!! Saudade eterna!

Tatiane Costa Ottani
Piracicaba, São Paulo

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Davi Henrique, meu filho, meu anjinho protetor


E a minha linda história de muito amor começou assim:

Desde pequena falava que queria engravidar somente aos 30 anos, com uma vida mais estabilizada, para dar o melhor que pudesse aos meus filhos. E foi assim, com 30 anos, em agosto de 2013, comecei a planejar minha gravidez para o final do ano, em dezembro. Fui ao médico para fazer tudo certinho e receber as orientações. Pois bem, fiz uma ultrassonografia e li que tinha ovários polifoliculares, então inocentemente pensei: não vou conseguir engravidar fácil. 

Em setembro de 2013, comecei uma dieta, queria ficar bem magra antes de engravidar no final do ano. Pois esse pode ter sido um dos problemas, dei uma vacilada por acreditar no exame dos ovários polifoliculares e na primeira vacilada em 9 anos de relacionamento engravidei de primeira. Estava de dieta, sem tomar acido fólico, enfim, um mês depois comecei a passar muito mal, minha menstruação atrasou, fui fazer exame e POSITIVO.

Fiquei feliz, adiantou 3 meses do que eu queria, mas era para ser... 

Tive alguns problemas no começo, um pequenino descolamento ovular, tive que ficar de repouso até 2 meses, mas nada muito preocupante. Finalmente veio o ultrassom morfológico, o pior dia da minha vida. Estava muito feliz vendo meu filho pular na minha barriga, não parava um minuto, mas o médico demorava muito e fazia caras feias... Eu percebi que tinha algo errado, então ele me disse: "Seu bebe tem ACRANIA, o que vai levar a ANENCEFALIA, e consequentemente a incompatibilidade com a VIDA!" 

Saí de lá arrasada. Todos os médicos que fui pediram para eu tirar meu filho, que sobrecarregaria o meu corpo, que iria sofrer depois e um monte de conversa. Eu não absorvi nada do que falavam, pois dentro de mim estava meu filho, meu sangue, carne da minha carne, eu nunca falaria NÃO à VIDA do meu filho!!! Só de pensar nisso me sentia a pior pessoa do mundo, e assim resolvi manter minha gravidez. Fui atrás de outras mães com o mesmo problema, encontrei a Joana, que me apresentou ao grupo do facebook Vida Acrania, e ali encontrei a maior das forças. Fiz grandes amizades, aprendi a amar cada dia com meu filho na minha barriga. 

Para muitas mães, o normal é elas não verem a hora de chegar o dia do nascimento, mas para mim era diferente. Se pudesse, estaria com ele até hoje na minha barriga! 

Tive aumento de liquido (polidrâmnio) com 30 semanas. Sofri muito com dores, pois a barriga ficou enorme, mas aguentei firme até onde consegui. Não quis em momento algum adiantar o parto, queria que a natureza se encarregasse de fazer o que tinha que ser feito. Com 34 semanas e 5 dias minha bolsa estourou, fui para o hospital às 2h da manhã, fiquei em trabalho de parto até o meio-dia. Os médico me davam remédio para o útero segurar a dilatação, pois no entendimento deles teria que ser cesárea e acabou! 



Minha médica não chegava, estava há quase 10 horas em trabalho de parto e nada, ela chegou às 11h (um absurdo), mas enfim, às 12h03min meu filho veio ao mundo. Foi uma mistura de emoções muito grande. Me mostraram ele e o levaram para a UTI NEO. Ele era prematuro, porém era comprido e tinha 1660kg, era um bebezão para 34 semanas. Fui para a pós-anestesia e depois de 2 horas trouxeram ele para me despedir, pois ele estava ficando fraquinho. Peguei ele no colo, ele piscou, chorei muito com ele no meu colo... Agradeço às enfermeiras do Santa Joana que tiveram essa sensibilidade de trazê-lo até mim, para poder tocá-lo e senti-lo. Duas horas e trinta minutos depois, ele foi para junto de Deus.

Eu agradeço muito ao meu filho, ele me fez uma pessoa muito melhor, hoje sou outra pessoa, sem preconceitos, aprendi a dar valor para pequenas coisas!! 

Faz 5 meses que ele se foi, hoje a saudade toma conta do nosso coração, mas o amor e a sensação de dever cumprido é maior que tudo!!!




Davi Henrique, meu filho, meu anjinho protetor, te amo pra sempre e um dia vamos nos encontrar e ficar para sempre juntos!!!!


Viviane Roeher, São Paulo, SP

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Minha estrelinha, ISABEL SOUZA BRAGA


No dia 4 de julho de 2013, às 17h30, recebi o grande resultado: eu estava grávida. Eu dei um baita abraço no meu esposo e até chorei, o coração bateu forte, a sensação foi incrível, era uma emoção jamais sentida antes e o melhor presente de aniversário do mundo, pois naquele mês era meu aniversário. Com o resultado do exame, na semana seguinte comecei meu pré-natal. Eu já estava com 8 semanas de gestação. A ficha ainda não tinha caído, mas o amor por aquela criança não cabia no peito...

No mês seguinte, dia 22 de agosto, fui fazer meu primeiro ultrassom. O médico não dizia uma só palavra, e como era pelo SUS só iria receber o laudo em 7 dias. Até que no dia marcado recebi o ultrassom. Eu estava sozinha e percebi que algo estava errado. A ultra dizia que o bebê tinha uma "má-formação no sistema nervoso central".

Chegando em casa, liguei para meu esposo que estava trabalhando e disse a ele que havia alguma coisa errada com nosso bebê. Depois fui pesquisar e não entendi nada com nada. Eu não tinha consulta marcada para aquele mês, mas fui correndo mostrar ao meu obstetra.

De sorridente, ele ficou sério e balançou a cabeça de forma negativa. Logo tive certeza que realmente havia algo errado. Ele não confirmou nada, disse que podia ser apenas um erro, mas imediatamente me pediu um ultrassom morfológico. 

Na semana seguinte fui fazer o morfológico e infelizmente recebi o triste diagnóstico: anencefalia. A moça que estava fazendo a ultra me explicou um pouco sobre o assunto, mas o tempo todo dizia que eu teria que interromper a gravidez, como se essa fosse a única saída. Aguentei firme até sair daquela clínica, porque lá, ao contrário de mim, havia muitas mamães felizes. Saindo de lá, desabei no choro. Minha mãe me prendeu a ela e juntas chorávamos. Eu pedi para que ela ligasse para meu esposo e pedisse que ele não fosse trabalhar. Todas as pessoas ao nosso redor olhavam sem entender nada. Chegando em casa, olhei para o meu esposo e corri pra cama. Ele logo correu ao meu encontro e me abraçou. Eu em meio a lágrimas, disse: "vou ter que tirar nosso bebê, amor". Imediatamente caímos no choro, ficamos sem chão. Todos nós estávamos sofrendo. Por que, meu Deus? Tirar aquele bebezinho? Nunca tinha sentido uma dor tão forte. Meu esposo ficou doente e eu chorava dia e noite.

Voltei ao meu obstetra, ele também ficou triste e disse que estava torcendo para que não fosse nada grave. Ele iria continuar me acompanhando, mas iria me encaminhar para um hospital que recebia grávidas de alto risco. Ele me disse que lá iriamos conversar com um grupo de profissionais e eu e minha família é que iríamos escolher ir adiante ou interromper.

Minha mãe e meu esposo foram comigo para o novo hospital. Lá conheci três médicos que nos tiraram todas as dúvidas. Minha mãe disse a eles que eu iria interromper, mas eu continuei calada, sem confirmar nada. Eles disseram que eu teria que conseguir uma autorização judicial. Me examinaram, mas não conseguiram escutar o coração do bebê, então me pediram para voltar no dia seguinte.

De manhã bem cedo voltei, fiz várias ultrassonografias e também foi feito o laudo médico. Escutei aquele coraçãozinho batendo perfeitamente e também soube naquele dia que estava esperando uma mocinha. Eu fiquei super feliz com a notícia e o mais engraçado era que meu esposo me dizia sempre com toda certeza do mundo que era uma menina. Eu achava que era coisa da cabeça dele, pois ele queria muito uma menininha (risos).

Meu esposo tentou falar com um advogado, mas não conseguiu, então eu disse a ele que não precisava mais, pois eu tinha decidido ir adiante com a gestação. Ele ficou preocupado comigo, mas me apoiou, junto com minha mãe e meus irmãos. Na próxima consulta o obstetra me perguntou o que eu tinha decidido, eu então perguntei se corria algum risco indo até o fim. Ele disse que seria uma gestação como todas as outras e me apoiou em continuar.

Em meio a tudo isso vi uma linda reportagem aqui em Fortaleza contando a história da Joana, do Marcelo e da pequena Vitória de Cristo. Ela tinha sido diagnosticada com anencefalia e ainda viveu 2 anos e meio. Ter conhecido a história deles me deu uma esperança enorme. Mandei um e-mail para ela, que me respondeu com muito carinho e ainda me adicionou ao Grupo Acrania e Anencefalia. Fui muito acolhida por pessoas que nunca vi na vida, pessoas que sabiam o que eu estava sentindo, pais que passaram ou estavam passando por tudo aquilo também. Eu e meu esposo ficamos maravilhados com o apoio de todos. Todos os dias eu pesquisava sobre o assunto, via fotos de bebês com anencefalia e vários depoimentos.

Eu me culpava demais e questionava muito a Deus... Com o tempo fomos assimilando a ideia e cada chute, cada consulta, cada bater de coração me dava forças para prosseguir. Eu e meu marido vivíamos um dia de cada vez, curtíamos cada segundo, amávamos além de qualquer coisa e assim os meses foram passando. Não fizemos enxoval, mas Isabel ganhou muitas coisas lindas. Gestação de risco? Nem um pouco, eu tinha uma saúde de ferro, minha pressão era ótima e a Isabel era muito boazinha (risos).

Ela mexia sem parar, por muitas vezes não me deixando dormir, mas eu amava. Dia 17 de fevereiro de 2014 foi minha última consulta, eu já estava com 39 semanas e 4 dias. Meu médico me deu um encaminhamento para que fosse internada, mas não tive muita sorte, o hospital estava lotado e apesar de ser uma bebê com anencefalia, eu e a Isabel estávamos super bem. Então resolvi esperar a hora em casa mesmo. Era a reta final e eu estava tranquila, eu sentia muita dor nas costas, pois era magrinha e só tinha barriga.

No dia 2 de março, minha mãe e minha tia me levaram quase que a força para a emergência do hospital. Eu estava com 41 semanas e 3 dias e apenas sentia dores nas costas. Veio um médico que eu não conhecia fazer o exame de toque e ele simplesmente com seu coração duro me perguntou se eu sabia do diagnóstico do bebê e por que não tinha interrompido a gravidez, vocês acreditam nisso?

Eu apenas ignorei o que ele tinha perguntado. Na hora do exame, a Isabel não parou quieta e uma outra médica que estava lá sorria bastante e ficava besta com os mexidos da Isabel. Aí o médico bruto fez o exame de toque e o descolamento de membranas para me ajudar a entrar em trabalho de parto. Então disseram que se eu não sentisse nada em 2 dias, voltasse ao hospital porque não poderia esperar mais. Dois dias e nada. Até que no dia 05/03/14 voltei ao hospital bem cedo. Chegando lá, o hospital estava fechado pois não tinha mais vaga pra ninguém. Conversa vai, conversa vem, até que conseguiram um cantinho para nós. Eu estava com 41 semanas e 6 dias, meu parto seria normal e induzido.

Eu estava tranquila, sem medo e esperei com calma e paciência a grande hora chegar. Às 13 horas minha bolsa rompeu e passei quase 3 horas derramando líquido. Depois das 15 horas da tarde comecei a sentir as contrações. Na troca de plantão, a médica da noite veio me examinar, escutou o coraçãozinho da Isabel e fez o exame de toque: ela já estava saindo. Fui para a sala de cirurgia às 20 horas e exatamente às 20h17min ela nasceu, pesando 2.970kg. Eu só a vi de costas, estava muito cansada e desmaiei lá mesmo, enquanto os médicos a levaram rapidamente e eu não consegui mais vê-la.

Fui para um lado e ela foi para outro. Eu não parava de pensar na minha pequena Isabel, como ela estava, se estava bem, se estava viva. Infelizmente nenhum médico veio me ver e dar alguma notícia.

Pela manhã, a enfermeira que estava com ela veio me dar a triste notícia de que minha Isabel havia falecido às 5h40min daquela manhã. Eu não tive reação alguma. Tudo que eu queria era ver meu esposo e minha mãe. Quando minha mãe chegou, me disse que a Isabel tinha nascido como se tivesse duas bocas. A assistente social quase me mostrou a foto, mas minha mãe não deixou e ela foi embora. Meu esposo estava ajeitando tudo, certidão de nascimento, certidão de óbito e cuidando do velório e enterro.

Eu recebi alta naquele mesmo dia e me disseram que a Isabel já estava indo ser enterrada. Meu Deus! A pior coisa do mundo foi sair daquele hospital sem a minha filha nos braços. Cheguei em casa muito mal, eu não tinha visto minha filha e nem feito nada do que eu planejei a gestação toda. Eu só fui chorar de verdade dois dias depois, que foi quando a ficha caiu.

A minha recuperação física foi rápida, mas a emocional não... A minha intuição de mãe dizia que alguma coisa estava errada. Então comecei a perguntar a minha mãe e ao meu esposo sobre a Isabel, como ela era, até que minha mãe desabafou, me falou que a Isabel havia nascido com mais más-formações e o rostinho dela não tinha se formado, e disse também que o enterro dela foi no dia 7 de março e não no dia 6 como eu achava. Ou seja, minha família e os médicos acharam melhor eu não saber de nada. Eu fiquei muito chateada e triste, porque eu era a mãe, eles não tinham o direito de esconder isso de mim. Foi uma escolha bem infeliz de todos.

Passados alguns dias, descobri também que a esposa de um primo meu tinha tirado uma foto dela. Então eu pedi para ela me mandar, mas ela não mandou. Perguntei ao meu primo e ele também não quis mostrar. Mais uma vez fiquei chateada e triste, todo mundo tinha visto a foto e eu, que era a mãe, não podia ver. Até que minha irmã me ajudou e conseguiu a foto. Perguntou se eu queria mesmo ver, e eu disse que sim, claro!

Até que de tanto perturbar a todos, consegui ver a foto da minha filha. Realmente a má-formação foi muito agressiva com ela. Eu não me assustei ao ver a foto, só fiquei triste por não ter tido um rosto para ver. Também não entendi porque nas ultrassonografias não foi mostrada a má-formação facial. O meu amor não mudou em nada, pelo contrário, fez foi aumentar ainda mais. Deus me fez ver de forma diferente, era a minha princesa, tão inocente e tão frágil. Vendo a foto, percebi que foi melhor assim, da forma que ela nasceu, ela sofreria e todos nós também.

Eu dei a vida àquela menininha lindinha, permiti que ela vivesse o tempinho dela, e eu a libertei. Minha Isabel, apesar de tudo, foi uma guerreira, pois viveu por longas 9 horas e 23 minutos.

Hoje eu estou em paz e já não culpo mais ninguém. Deus sabe de todas as coisas e talvez tenha sido melhor assim. Na bíblia fala que nada acontece que não seja da permissão de Deus e eu me apeguei bastante nisso.

Eu sei que não vivi a emoção de pegar minha filha no colo, abraçar e beijar, mas sem sombra de dúvidas vivi momentos mágicos com ela aqui dentro de meu ventre. Foi um aprendizado e tanto, aprendi a amar além das imperfeições e me sinto super honrada por ela ter me escolhido como sua mãe. Não me arrependo em momento algum de ter seguido a gestação até o fim. Minha princesinha Isabel foi a página mais linda que Deus escreveu na minha vida. Eu cuidei dela e a protegi por nove meses e agora é ela quem cuida de mim.

A saudade é enorme e o amor é sem tamanho... Sempre será a primeira e amada filha para todo sempre. Não se passa um só dia em que eu não me lembre dela. Estou bem, tem dias que são mais tristes do que os outros, mas  sei que isso faz parte. Essa é minha história de amor sem fim.

E pretendo, se Deus quiser, dar irmãozinhos para a Isabel, para que lá de cima ela cuide deles também, afinal, ela será a irmã mais velha.


"SÓ ENQUANTO EU RESPIRAR, VOU TE AMAR E ME LEMBRAR DE VOCÊ...

Minha estrelinha,

ISABEL SOUZA BRAGA"

Mirelle Souza,
Fortaleza, CE

domingo, 20 de julho de 2014

Entrevista com Adriana Thomaz - Terapia do luto


A morte de um ente querido é uma das piores dores que um ser humano pode sentir. Vivenciar o luto é imprescindível para suportar tanto sofrimento e fazer ressurgir um novo viver, como a terapeuta Adriana Thomaz, especializada no assunto, explica nesta entrevista.


Texto Keila Bis | Fotos Daryan Dorneles


Foto: Daryan Dorneles

O incêndio que chocou o país ao provocar a morte de mais de duas centenas de jovens na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, causando uma dor indescritível em parentes e amigos, suscitou uma questão: como voltar a viver após uma perda tão irreparável como a de ter, por exemplo, um filho morto? É possível, um dia, ser feliz novamente? Para falar desse pós-morte e de tantos outros, a revista BONS FLUIDOS entrevistou a terapeuta de luto Adriana Thomaz. Formada em medicina, com diversas especializações no Brasil e no exterior, Adriana chega a atender em média 100 pacientes por mês em seu consultório, no Rio de Janeiro. São pais, filhos, namorados, maridos, esposas e amigos que a procuram em busca de respostas para aplacar esse sofrimento. A profissão ainda é desconhecida no Brasil e com poucos profissionais na área, mas começou a despertar a atenção quando a atriz Cissa Guimarães, que perdeu um filho atropelado em 2010, iniciou um tratamento com Adriana e passou a ser um tipo de porta-voz desse trabalho. “Ela me ensinou a viver meu luto, a respeitar minha dor e a abrir espaço para minha alegria viver com essa dor. E, por incrível que pareça, essa maior perda do mundo me fez evoluir e me tornar uma pessoa melhor”, conta Cissa. Nesta entrevista, Adriana fala sobre a importância de viver o luto, de como fazer isso e – por que não? – de como voltar a ser feliz.

BONS FLUIDOS: O que é o luto?

Adriana Thomaz: Um processo que decorre do “rompimento” de um vínculo, de um laço afetivo. Coloco a palavra rompimento entre aspas porque o luto é um tempo de reconstrução da identidade e da vida. Um tempo de descoberta de uma forma de restabelecer o vínculo rompido, de desenvolver a ideia de que, na verdade, o vínculo é contínuo por meio do eterno sentido e amor daquela pessoa na vida de quem ficou.

BF: Como o luto deve ser vivenciado?

AT: Há várias formas, já que o luto de cada pessoa é singular e não obedece a um padrão. Eu penso na elaboração do luto como uma forma de reorganizar o sistema familiar, pois o luto não é feito apenas de choro e lamentação. Também encorajo o enlutado a viver cada fase desse processo de forma coerente, expressando seus sentimentos, pensamentos e emoções e adaptando-se à nova realidade por meio de autoconhecimento e contínuo aprendizado. São comuns os sentimentos de dor, impotência, raiva, angústia, medo, tristeza, revolta, mas também de lampejos de alegria. O importante é compreender que não há nada de errado com nenhum dos sentimentos experimentado.

BF: O momento mais crítico do luto são os primeiros meses?

AT: O luto é um processo, e não um estado ou um evento isolado. Isso é muito importante. Não é um conjunto de sintomas que surgem depois de uma perda e que tendem a desaparecer com o tempo. Os primeiros meses nem sempre são aqueles em que a tristeza profunda predomina porque muitas vezes “a ficha não caiu”, a rotina ainda não se estabeleceu mostrando claramente a ausência, a saudade, a falta. Essa tristeza precisa ser manejada adequadamente, por intermédio de recursos internos ou externos, a qualquer momento, independentemente de quanto tempo se passou desde a morte.

BF: Quais são as fases do luto?

AT: O luto é um processo intenso, com uma sucessão de fases que se mesclam e se substituem. Na primeira fase (choque e entorpecimento), as pessoas têm dificuldade em compreender e acreditar que a morte tenha acontecido – é como se fosse um pesadelo –, apesar de os momentos de desespero e dor se intercalarem. Na segunda fase (anseio e busca), elas podem se recusar a reconhecer a perda e tentar fazer as coisas voltarem a ser como eram antes da morte. Podem procurar o falecido, tentando “trazê-lo de volta” ao se recusar a permitir, por exemplo, que os pertences dele sejam removidos. Não quero dizer com isso que os pertences devem ser removidos de um momento para outro. As reações (fases) têm de ser respeitadas. Quando o indivíduo percebe que o retorno da pessoa, com vida, é impossível, os sentimentos de frustração e raiva podem vir à tona. Nessa fase (desorganização e desespero), a pessoa se distrai facilmente, tem dificuldade para se concentrar e pode tornar-se profundamente triste. É quando o enlutado se dá conta de que o falecido não está voltando, e esse reconhecimento deixa alguns indivíduos confusos, com medo e incertos sobre seu futuro. Na última fase (reorganização e recuperação), o enlutado percebe que consegue tocar a vida, apesar da saudade. Mas fica um alerta: nem todos se movem por essas fases na sequência aqui descrita.

BF: Quanto tempo dura o luto?

AT: Varia muito, pois depende de vários fatores, como a qualidade da relação da pessoa com o falecido, da personalidade e da idade do enlutado e da forma da morte. Costumo dizer que o luto geralmente dura um ano, justamente porque nesse período a pessoa poderá elaborar a própria situação e se reorganizar psiquicamente, bem como reinvestir seu afeto e ressignificar a vida, uma vez que atravessa pela primeira vez as datas significativas sem a pessoa perdida.

BF: É verdade que com a morte vem o sentimento de culpa?

AT: Algumas pessoas tendem a “personificar” a morte e procuram alguém para culpar. Existe também a culpa pela sobrevivência, ou seja, a pessoa pode se sentir culpada por ter sobrevivido. Algumas mulheres ficam com raiva do marido falecido por não ter ido procurar o médico quando os primeiros sinais e sintomas da doença fatal começaram, ao passo que outras podem culpar Deus ou qualquer outra entidade de natureza extracorpórea pela morte.

BF: Como as pessoas devem pensar e agir para não sentir essa culpa?

AT: Muitas vezes, dizer para a pessoa “não se sinta culpada, você não é culpada” não será suficiente. Em geral, podemos descobrir a razão mais profunda desse sentimento de culpa ouvindo o enlutado com bastante atenção. Frequentemente as pessoas se culpam por ressentimentos verdadeiros com o falecido. Quem, num momento de raiva, já não desejou que alguém desaparecesse, sumisse do mapa? Então, é importante ouvir de maneira apurada, sem censurar, sem ter a pretensão de fazer a pessoa se sentir “ótima” a todo custo, sem tentar fazer a pessoa se livrar, de um momento para outro, do sentimento que ela experimenta.

BF: Como as pessoas próximas aos enlutados devem agir?

AT: Cada pessoa sofre de um jeito e fica enlutada de uma forma muito particular. A verdade é que, por mais que já tenhamos vivido a dor de nossas perdas, precisamos de humildade para reconhecer que o outro sentirá a própria dor de uma forma diversa da nossa. Comentários como: “eu sei muito bem o que você está passando”, “você vai conseguir porque é forte e guerreiro”, “pare de chorar, você precisa ficar bem para sua família”, “seu filho não gostaria de vê-lo sofrendo” são inadequados e as pessoas de luto podem sentir-se profundamente angustiadas por ouvir essas frases e pensar que devem aceitá-las como verdades absolutas. Devemos oferecer nosso apoio, nossa atenção e escuta amorosa e paciente, sem lhes dizer o que fazer, sem lhes dar conselhos fáceis e receitas prontas. Não adiantará nada tentarmos abafar a dor. A dor ficará soterrada e precisará vir à tona em algum momento. As pessoas precisam de tempo para que voltem a acreditar no valor da vida, do amor, da solidariedade. Quem passa pelo luto precisa de uma rede de apoio. Sempre pergunto ao enlutado com quem ele pode contar. Sugiro que ponha nomes e telefones num papel e o carregue consigo. Há também a ajuda de profissionais especializados, a ajuda de organizações voltadas para o suporte e o apoio a pessoas enlutadas e a ajuda espiritual.

Foto: Daryan Dorneles


BF: Onde procurar ajuda especializada?

AT: Há diversas formas de ajuda oferecidas por organizações não governamentais e grupos de entreajuda com voluntários treinados para o aconselhamento a pessoas enlutadas, independentemente de como ou quando a morte tenha acontecido. No Rio de Janeiro e em Curitiba, há a organização Amigos Solidários na Dor do Luto.

BF: Como matar a saudade de uma pessoa que não está mais presente fisicamente?

AT: A vida nunca mais será a mesma depois de um luto, mas o sofrimento e a dor tendem a diminuir e vai chegar um momento em que o indivíduo será capaz de se adaptar para lidar com a vida sem a pessoa amada. Muitos ficam preocupados, pensando que vão esquecer a pessoa que morreu: seu olhar, sua voz, seus bons momentos juntos. Há muitas maneiras de manter sua memória viva: conservar suas lembranças especiais e sustentar a alegria quando ela vier; escrever suas memórias em um diário ou agenda; criar um álbum de fotos... Datas significativas simbolizam a eternização, a continuidade da vida, o vínculo contínuo e eterno com aqueles que amamos: ritualize da sua forma. Nas fases iniciais do luto, é possível que essas datas especiais sejam muito difíceis para o enlutado, mas se ele sentir vontade pode produzir um legado realizando atividades significativas. Pode ser um ritual bem simples, como usar a cor preferida do falecido ou a sua ou uma flor, uma comida, um lugar.

BF: Como os enlutados devem agir com as crianças?

AT: Na maioria das vezes, tanto a criança pequena quanto a maior percebem a maior parte dos fatos que os adultos tentam esconder, mesmo que elas não se expressem por meio de palavras. Apelam, às vezes, para jogos, desenhos ou brincadeiras como forma de expressar seu sofrimento e denunciar seu medo, ou melhor, sua pouca compreensão da morte. Quando a omissão da realidade sobre a morte ocorre, para “poupar a criança do sofrimento”, ela quase sempre capta a tristeza e a ansiedade dos adultos, mesmo que eles tentem fingir que está tudo bem. Não raro, elas se sentem culpadas porque pensam que elas são a origem daquele sofrimento. Meu trabalho terapêutico tem finalidade educativa, ou seja, tenho ajudado pais e crianças a lidar com a nova realidade da morte e a atravessar o luto juntos, respeitando o limite da criança, claro, mas estimulando que ela participe dos rituais se assim desejar e tenha seu luto validado, reconhecido e acompanhado de perto pela família. Cada criança tem conceitos e imagens diferentes sobre a morte e o morrer, que devem ser levados em consideração, promovendo uma comunicação efetiva. Muitos recursos podem ser usados para falar da morte, como histórias infantis, teatro, desenhos, jogos. O importante é que a criança encontre espaço para expressar a perda, assim como os adultos que cuidam dela.

BF: Qual é o melhor momento para decidir sobre o que fazer com as roupas e outros pertences do morto?

AT: Por desconhecimento e pouca educação para a morte, muitas famílias na nossa sociedade têm doado os pertences de seus entes queridos falecidos e lamentam, após o ato, quase sempre irrefletido, por terem se desfeito de tudo tão depressa. Assim, agir por impulso, nos primeiros momentos, pode não ser a melhor opção. O importante é pensar com cuidado e calma a respeito dessas questões. Muitas vezes ajudo meus pacientes a decidir quando é o momento, o que e quando fazer com os pertences de seu ente querido.

BF: É normal que o enlutado sinta vontade de se divertir, passear e namorar durante esse período?

AT: Pode se tratar de uma negação da perda, mas também pode ser uma reação imediata de tentativa de recuperar a identidade, colocar as coisas no lugar que sempre tiveram, por exemplo. Se isso não for exagerado e se paralelamente a pessoa encontra momentos para expressar sua dor, devemos observar sem interferir. Por outro lado, considero muito importante que os profissionais de saúde aprimorem o olhar para reações inibidas ou adiadas do enlutamento, quando se finge que nada aconteceu, ou quando as reações são extremamente desproporcionais, com a sensação de caos absoluto. Nesses casos, será necessária a intervenção de alguém responsável para essa finalidade.

BF: Tomar remédios, como antidepressivos, é indicado durante o período de luto?

AT: O luto é um processo normal, a tristeza não deve ser medicalizada. O enlutado precisará lidar com emoções dolorosas e que oscilam. Elas tendem a passar com o tempo, à medida que novos significados são construídos e o cotidiano é reorganizado. A medicação psiquiátrica com antidepressivos e/ou ansiolíticos é indicada para casos específicos, quando há quadros psiquiátricos que acompanham o processo, como transtornos de ansiedade ou depressão clínica.

BF: Como o casal deve agir diante da perda de um filho?

AT: A palavra é comunicação. No processo do luto, o casal pode encontrar uma extrema dificuldade em aceitar a forma diferente de enlutamento do parceiro, podendo haver também cobranças e mágoas relacionadas a uma possível culpabilidade mútua. A terapia do luto pode prevenir as perdas secundárias ao luto, como o divórcio, e “autorizar” que o sofrimento dos pais possa se manifestar de formas distintas. Por exemplo: o pai que precisa e deseja voltar ao trabalho, ao passo que a mãe precisa ficar mais tempo recolhida. Não há certo ou errado. Há o que é melhor para cada um, individualmente. E isso precisa ser negociado, arrumado, acordado e respeitado.

Porta-retrato da terapeuta Adriana Thomaz com as filhas, Fernanda e Bruna, a neta, Nicole, a sobrinha, Yara, a irmã, Juliana, e o marido, Rodrigo.

BF: É possível ser feliz novamente depois de uma perda tão especial, como a de um filho ou a dos pais?

AT: Compartilho minha opinião com um grande teórico, Alan Wolfelt, que resume: “A experiência do luto é poderosa. Assim também é sua capacidade para ajudar a curar a si mesmo. Ao viver o processo do luto, a pessoa está se movendo em direção a um renovado senso de significado e propósito em sua vida”. A elaboração do luto possibilita a construção desses significados novos, assim como a definição de novos propósitos na vida. Após a elaboração do luto, a pessoa não será mais a mesma. Será uma nova pessoa, com uma nova hierarquia de valores, com novos sentidos e perspectivas, mas, acima de tudo, será uma pessoa que poderá viver mais plenamente a vida. E é possível ser feliz novamente, muitas vezes num outro conceito de felicidade.

BF: Que mensagem você deixa para os pais, parentes e amigos que perderam alguém na tragédia em Santa Maria?

AT: Deixo uma mensagem de acolhimento, um abraço demorado e carinhoso antes de qualquer palavra. Lidar com uma tragédia de grandes proporções demanda uma abordagem muito diferente da realizada no luto normal, uma vez que o estresse, a sensação de destruição, de vida sem valor é muito mais intensa. Mas digo também que é possível voltar a ser feliz, por mais que neste momento não seja fácil acreditar nessa afirmação. É possível viver o luto e sair dele transformado. Este é o trabalho do luto: permitir que a pessoa enlutada passe de vítima para sobrevivente, que não apenas passe pelo luto, mas cresça por meio dele, que, como sobrevivente, não apenas sobreviva, mas reaprenda a viver plenamente.




quinta-feira, 19 de junho de 2014

A vida de nosso Davi: uma caminhada de amor e fé!


A história do meu querido filho Davi começou a ser escrita há algum tempo, quando conheci meu esposo em 2005: nos apaixonamos à primeira vista, logo começamos a namorar, noivamos e, em setembro de 2007, nos casamos. Éramos bastante jovens e logo de início decidimos que iríamos esperar um pouco para planejar a chegada de um filho, afinal ainda tínhamos uma casa pra construir, faculdade por acabar e alguns projetos por realizar... 

Um dos nossos grandes sonhos, além de sermos pais, era fazer uma viagem de lua de mel à França e, depois de 5 anos casados, conseguimos dar esse presente um ao outro. Viajamos em março de 2013. A gente sempre brincava que durante a viagem ia “encomendar” o herdeiro, e sem imaginar que isso se tornaria realidade, aconteceu.

Comecei a desconfiar da gravidez já no mês seguinte, mas só confirmei mesmo no comecinho de maio. Foi uma alegria tremenda: família, amigos, todos radiantes! Alguns dias depois do dia das mães pude escutar seu coraçãozinho pela primeira vez e vê-lo, tão pequenino, frágil... Impossível descrever a emoção! Nesse primeiro ultrassom tudo tinha corrido muito bem, mas meu coração estava meio inquieto, havia momentos em que eu desconfiava de toda essa felicidade, um sexto sentido materno, eu sempre orava pedindo a Deus que nada de mal acontecesse...

Continuamos o pré-natal e logo chegou o momento de fazer a ultrassonografia morfológica. Marquei para um domingo bem cedinho, dia 16 de junho, 3 dias depois do meu aniversário. Eu estava muito ansiosa, queria saber se estava tudo bem e quem sabe até descobrir o sexo do bebê. Já tínhamos até escolhido os nomes caso fosse menina ou menino! 

Logo o médico entrou, sorridente, falante e começou a me examinar; depois do início seu semblante foi mudando, ele parecia atordoado, falando que não estava conseguindo visualizar bem o meu bebê e aí meu coração foi apertando, apertando, e eu já rezando para que o meu pressentimento não se confirmasse. Demorou bastante até que ele dissesse: “Seu bebê tem acrania, uma má-formação que evolui para anencefalia, já ouviu falar disso?” e eu não tinha palavras, só acenei com a cabeça.

Eu já tinha ouvido falar de anencefalia e, na minha concepção, até aquele momento, era um diagnóstico realmente incompatível com a vida, pois nunca tinha ido atrás de mais informações, de casos de crianças que sobreviveram, etc. O médico deu algumas explicações e começou a se dirigir ao meu marido, porque eu emudeci, só ouvia e chorava; meu marido não conhecia o diagnóstico e com mais calma conversava com o doutor; o médico, por sua vez, queria o número de telefone da minha médica, pois aconselhava a interrupção da gestação o mais rápido possível. Nós não tínhamos o número pessoal dela, então pegamos o resultado do ultrassom e saímos dali o mais rápido que pudemos, confusos, com milhares de questões na cabeça; nem soubemos o sexo do bebê. 

Liguei pra minha mãe contando o que tinha acontecido e ela procurou me acalmar, falando que podia ser um engano. Não quis ir pra casa direto, como todos os domingos vamos à missa, partimos de lá direto pra uma igreja. Naquela celebração Deus falava comigo a todo momento, me sentia muito próxima d’Ele, minhas lágrimas rolavam como se quisessem me lavar da dor que eu sentia em ter recebido a notícia de que aquele filho tão esperado não ficaria muito tempo conosco.

Pesquisei um pouco na internet, mas algumas imagens me chocaram profundamente. A única história que me incentivava a acreditar no milagre da vida foi a da Joana e sua linda Vitória de Cristo, que sobrevivera por mais de dois anos fora do útero. Um exemplo de amor e confiança em Deus!

Conversamos muito meu esposo e eu, e logo tomamos a decisão de que continuaríamos a esperar o nosso filho até o momento que Deus quisesse. Nesse momento meu marido me passou muita força e determinação, seu apoio foi imprescindível.

Na segunda de manhã tentei falar com a minha GO, mas ela não havia chegado, então fui trabalhar e acabei não conseguindo parar e ligar novamente. Fui ao consultório no outro dia e minha mãe foi comigo, meu marido não pôde ir. A doutora me deu mais detalhes do diagnóstico e falou de tudo o que poderia acontecer durante a gravidez, mas me deixou muito à vontade quanto a decisão de levar adiante a gestação. Ela me pareceu compreensiva e não tentou me persuadir do contrário. Me deu a guia para uma nova ultrassonografia e um encaminhamento para obstetrícia de alto risco.

Esperei um mês para fazer um novo ultrassom, tinha esperança que tivesse sido um engano e, ao mesmo tempo precisava de um tempo para organizar as ideias em minha mente; meu marido e eu resolvemos só falar do diagnóstico às pessoas mais próximas mesmo, nossos pais, irmãos, amigos chegados e os padres da paróquia em que sempre participamos. Conheço muitas pessoas na minha cidade, trabalho com muita gente, então ficar explicando a cada pessoa que perguntava sobre o bebê que ele tinha uma grave má-formação só me faria lembrar a todo momento disso e eu queria viver com alegria o pouco tempo que tínhamos.

Foi então nesse novo exame, dia 17 de julho de 2013, que descobri que eu gerava um menino. Fiquei extramente feliz, meu marido então, ficou bobo!!! Meu sobrinho e minha cunhada estavam conosco e puderam compartilhar da nossa emoção. Veio também a confirmação da anencefalia, mas eu me sentia forte o bastante para seguir.

Na mesma semana fomos participar de um grupo de oração e o Padre falava em sua homilia sobre o rei Davi. Ele reforçava a coragem que Davi teve de confiar em Deus para enfrentar o gigante Golias; Davi era ainda um menino e não sabia como a luta iria acabar, mas por sua fé sabia que Deus lhe daria a vitória. Também me sentia assim... e meu filho que iria se chamar Vitor se tornou Davi, aquele que é amado, querido, segundo o significado hebraico.

Dali em diante entreguei cada dia das nossas vidas ao Senhor. Comecei a ser acompanhada por outra obstetra que, de início não entendeu muito nossa decisão, mas a vencemos pelo cansaço. E cada passo era uma vitória: ir a uma consulta e saber que o coração do meu filho continuava batendo era a minha vitória; senti-lo mexer, chutar, se revirar em meu ventre era o que me dava forças. Cantava muito pra ele e acredito que ele gostava, pois não parava de se mexer, rsrs, muito bom! Fiz tudo o que pude pra que nos divertíssemos juntos, mantive a agitação do meu dia-a-dia, mas prestando atenção a cada sinal da vida preciosa do meu bebê.


O tempo passou e chegando à trigésima semana comecei a sentir fortes dores, falta de ar, fui ao PS do hospital onde daria a luz e foi diagnosticado polidrâmnio, aumento do líquido amniótico. Fui afastada do emprego e tentei ficar em repouso, porém a bolsa rompeu na semana seguinte, com 31 semanas de gestação.

Chegar à maternidade foi um capítulo a parte, pois era uma sexta-feira, 8 horas da manhã, eu morando na grande São Paulo e hospital na Zona Sul, quem conhece São Paulo sabe do que eu estou falando: trânsito, trânsito e mais trânsito... eu precisava ir para lá, pois era a maternidade onde a médica que vinha me acompanhando faria o parto. 

Com a ajuda de Deus chegamos lá em pouco tempo, a equipe de plantão me examinou, as médicas conversaram entre si e vieram nos falar. Diante do quadro elas achavam melhor fazer o parto normal induzido, visto que eu já tinha dilatação e o Davi estava em boa posição; quanto ao prognóstico me asseguraram que não haveria diferença. Fiquei bastante confusa, mas acreditei na equipe, o meu sim à vida já tinha sido dito e agora as coisas se encaminhariam conforme os planos de Deus... Minha médica estava a par dos acontecimentos e achava melhor, para a saúde do meu útero, não recorrer à cesariana.

Orei muito, muito, meu marido ficou comigo todo o tempo; a cada contração lá estava ele para me olhar com amor e me transmitir a força que eu precisava. Toda essa experiência me fez ver a pessoa maravilhosa com que me casei. Falava muito com o Davi também, muito apreensiva, mas sempre com palavras de carinho, dizendo que eu o esperava ansiosamente...

Às 18h30 do dia 25 de outubro de 2013, depois de 10 horas e meia de trabalho de parto, o Davi nasceu ! Não ouvimos seu choro e as duas médicas não nos mostraram ele imediatamente, chamaram o meu marido e ele o viu, sem vida... Quando o trouxeram pra mim eu já sabia que iria passar pelo momento mais marcante da minha vida, de conhecer o meu anjo e me despedir dele. Se eu pudesse voltar no tempo teria pedido para abraçá-lo, mas o tempo não volta, isso ainda me dói... Olhei pra ele, pra cada detalhe, seu rosto, boquinha, queixinho, mãozinhas e pezinhos perfeitos; lindo, meu filho. Orei em silêncio por ele e chorei, não desesperadamente, mas num misto de sentimentos... um momento que nunca conseguirei traduzir em palavras.

Acabei tendo alta no dia seguinte (benefício do parto normal) e fizemos o seu sepultamento. Muitos amigos estiveram conosco e nos deram muita força. Muita gente que não sabia o porquê ainda, mas chorava comigo a perda do meu pequeno. 

Foi difícil me despedir, mas eu sentia uma estranha paz; meu coração parecia flutuar naquela tarde ensolarada do dia 26 de outubro, era como se eu estivesse em outra dimensão; na hora em que abracei meu marido imaginei nosso filho sendo recebido pela mãe de Jesus, figura especial a quem tenho grande devoção. Guardo isso em meu coração, essa imagem me consola quando a saudade aperta mais...

Para as mamães que estão vivendo uma gestação com esse duro diagnóstico eu reforço: aproveite cada momento da gestação, seu bebê é um presente em sua vida, e não se abata com a incerteza do futuro. Tenha fé e esperança, pois Deus é bom e nos dá a força que precisamos para encarar tudo isso. 

E para aquelas que já passaram e convivem com a saudade como eu: acredite num céu, aonde um dia você também chegará e terá a eternidade para estar com o seu anjo! 

Davi, a mamãe e o papai te amam para sempre!

Você é a estrela que sempre brilhará mais forte ao olharmos para o céu!!!!!!!!


Josiane Milanez
São Paulo, SP
  



sábado, 26 de abril de 2014

Vitória, amor sem limites


Em 2009 soube que estava grávida. Poxa, pensa na felicidade! Com 4 meses e meio soube da grande notícia que mudou minha vida: meu bebê tinha anencefalia. Até então nunca tinha ouvido falar. Chorei muito. Os médicos queriam tirá-la, a minha menina, diziam que ela já estava morta, que não iria sobreviver...

Tive muitas complicações, coisas normais da gravidez, e numa ida de emergência ao hospital com sete meses, uma médica saiu do consultório e ao voltar veio vestida como se fosse fazer o parto, e com ela sua equipe querendo me levar para a sala de cirurgia, para que eu viesse a tirá-la. Disse para ela respeitar a minha decisão de não tirar. Então começamos a discutir o de sempre, e meu esposo perguntou para a médica se ela não acreditava em milagres. Com um sorriso debochado no rosto ela disse: "Milagres?? hahaha..."

Então meu esposo, já sem paciência, disse para ela: "Pois vai ser a senhora a fazer o parto da minha mulher". Ela só sorriu e me dispensou com dores para casa, dizendo que eu tinha escolhido assim.

Com 42 semanas, a danadinha não queria sair, então com ajuda de familiares, consegui uma médica que me internou no hospital universitário de Florianópolis, sem dores e sem dilatação. Me induziram por um dia e meio e o médico de plantão me disse: "Aqui só vamos fazer parto normal, ficará sendo induzida até conseguir nascer". Entrei em desespero. A cada ecocardiograma minha guerreira estava com o coração mais fraco... Eu pedia uma cesária para salvar minha pequena, pedia por misericórdia, mas eles não ouviam.

Depois de uma tarde muito conturbada, meus amigos se mobilizaram e falaram com o diretor do hospital, e depois de ameaças de colocar na televisão, na troca de plantão das 5 da tarde, aquela médica que debochou de mim entrou na sala e disse: "Vamos ver como está a dilatação, Gisele". Então depois de uma olhada ela me disse que minha dilatação não passava de 2 dedos, então me disse a tão esperada noticia: "Você vai fazer uma cesária".


Aquilo que meu esposo disse se realizou, e foi ela quem ajudou minha princesa a vir ao mundo, às 17h35 do dia 19/11/2010. Linda, com uns resmungos, foi levada a UTI Neonatal e graças a Deus não precisou de nenhum aparelho.

Minha história tem muitos detalhes, mas vou resumir o tempo em que ela viveu conosco dizendo a vocês que não privei minha garota de nada, e fiz questão de gravar e tirar fotos para comprovar muitas coisas que os médicos diziam que ela não viria a fazer...



Minha Vitória foi muito amada, meu anjo, meu raio de luz me deixou no dia 07/05/2011, faleceu em meus braços um dia antes do dia das mães, com 5 meses e 18 dias.

Hoje em seu túmulo há a seguinte frase: 

DEUS MORA NA CASA DO AMOR SEM LIMITES....
MINHA AMADA VITÓRIA...


Gisele Conceição
Florianópolis, SC

C

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Julia Maria, nossa maior riqueza


Olá Mamães e Papais...

Sou Ana Carolina, noiva do papai Tiago Almeida. Tivemos nossa princesa no ano passado. Nossa história começa no dia 24/05/2013, quando descobrimos que iríamos ganhar um bebezinho. O medo tomou conta de nós por alguns segundos, mas o coaração se encheu de alegria logo depois. Já estava com quase 2 meses, não desconfiamos porque outros exames tinham dado negativo.

Enfim, começamos a imaginar como seria nosso bebezinho. Eu iria ser Mãe, que alegria! Fomos às consultas e fizemos os primeiros exames. Tudo normal e tranquilo. Mamãe sem enjoos, seguindo feliz e radiante. Toda semana tirávamos fotos da barriguinha que ia crescendo rapidamente. Em todas as consultas, mamãe e papai esperavam ansiosos para poder escutar o coração do nosso bebê.

Com 24 semanas, já não aguentava mais de tanta curiosidade para saber se era menina ou menino. Até que no dia 13/07/2013 às 10h30, íamos saber se estava vindo a Julia ou o Renato.

Que alegria, mal consegui dormir à noite... Papai não poderia estar no exame, então foi a minha mãe, que já tinha certeza que era a Julinha ("a Julinha dela").

Na hora do exame a ansiedade tomava conta, estava até me dando dor de barriga (risos). Entramos na sala. Uma salinha escura com um médico e uma assistente. E logo começou o exame. O bebê mexia muito, não conseguia entender nada do ultrassom, conseguia apenas ver o coração que batia acelerado. Estava filmando tudo para mandar para o papai em tempo real, assim iria saber junto.

Até que ouço: Encontrei um probleminha com o seu bebê.

Meu Deus, e agora? Que "probleminha"? "Não encontrei o cérebro", responde o médico. Não sabia nada do diagnóstico. E perguntava: "Como eu faço, tem cirurgia, o que posso fazer para salvar meu bebê?" (ainda não sabia qual era o sexo). Sem muito pensar ele me responde: "Nada, seu bebê não tem nenhuma chance de vida".

Meu mundo caiu...

Extremamente nervosa, minha mãe pergunta, mas o que é o bebê... Sem nenhum pingo de compaixão ele para e responde... "Ahh, é uma menina..."

Minha princesa iria morrer... Meu mundo caiu. Até que a notícia chegou ao meu noivo e à minha sogra, todos na clínica nervosos e chorando, com um único pensamento: Meu Deus, que esteja errado esse diagnóstico.

Enfim, não estava. No dia 16/07/2013, mais uma vez uma ultra para poder tirar as dúvidas. Mas não restavam mais dúvidas, meu bebê tinha anencefalia. O que fazer agora, parar com a gestação como o médico sugeriu?

Não, continuamos seguindo em frente, e a cada dia íamos nos fortalecendo e aumentando nossa fé. Tiramos fotos, cantamos, montamos o quartinho dela... Nossa Julia Maria iria chegar e tínhamos que esperar a chegada dela. Seguimos com a gestação, que foi uma gestação normal e feliz.




Estava tentando me internar com 39 semanas, mas o hospital se recusava a me aceitar, por não ser da minha cidade. Com 41 semanas conseguimos, iríamos receber a nossa tão amada Julia Maria Faria de Almeida.

No dia 10/11/2013 nasceu a mais bela flor do nosso jardim. De parto normal, pesando 3,160 kg, com 47 cm de pura sedução e dobrinhas. Tão linda, tão branquinha... Que sonho, ali nasceu um amor que não tem palavras, com poucos segundos de vida eu já morreria por ela. 



O medo do que iria acontecer era enorme... Papai entrou para conhecer nossa boneca, as vovós corujas também e mesmo o hospital não permitindo, entraram a madrinha e padrinho, pois sabíamos que sua chegada já seria também sua partida...

Eu sem poder levantar, tinha perdido muito sangue e me sentia mal, com a pressão muito baixa, não conseguia ir à UTI ver minha pequena. Mas enquanto a enfermeira não chegava no quarto, sabíamos que estava tudo bem.

Passamos a noite sem saber o que acontecia com a minha princesa. No outro dia acordei cedo e fui ver minha filha. E ela estava lá, tão linda, tão gordinha! Estava me esperando, conversei, rezei com ela, beijei... Que emoção. Ficava o tempo todo com a minha boneca. E assim se repetiu por lindos e maravilhosos 18 dias.

Mamãe e papai estavam ali todos os dias, o todo tempo cuidando, amando e aprendendo com a nossa guerreira. Pudemos carregar, cantar, beijar e rezar. Rimos muito com a nossa princesa, bravinha porque não gostava de tomar banho e uma comilona que só pensava em mamar e mamar.


No dia 28/11/2013, sua missão se encerrava aqui na terra e começava lá no céu... Às 17h15, nossa Pipoquinha voltou pra sua casa.

Mamães e papais, esse foi um resumo da nossa história de amor, dedicação e fé com a nossa maior riqueza, que foi e é a nossa Julia Maria Faria de Almeida.

"Anjos não morrem, apenas voltam para suas casas"

Ana Carolina Faria e Tiago Almeida
de Boituva, SP


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Vitoria Karoline - fui mãe até o momento que Deus permitiu


Lençol de berço: lembrança guardada com muito carinho

Deus me deu uma missão, ser mãe de Vitoria Karoline, anencéfala e com mielomeningocele. Planejei minha gravidez para ter meu bebê na virada do milênio. Fiz o teste, deu certinho... Teria minha bebê entre os dias 29 a 1º de janeiro. Mas no 5º mês fui fazer um ultrassom de rotina e o médico começou a fazer algumas perguntas do tipo “Você tem casos de má-formação na família?”. Logo estranhei e perguntei o porquê e ele disse “Sua filha tem uma má-formação”. Com lágrimas perguntei se havia algum jeito de tratá-la em algum lugar, mas ele disse “Sem chance. Procure seu médico e decida se você quer levar adiante essa gravidez’.

Chorei muito. Meu sonho era uma menina. Era uma mocinha. Eu sozinha a 90 km da minha cidade no interior. Nossa como chorei. E como explicar para o meu filho de seis anos?!

Optei por não tirar a minha bebê. Dei amor, conversava com ela, amava muito... Não era pena, era amor. Ela correspondia com mexidinhas...

No mês de novembro entrei em trabalho parto. Após 12 horas, optaram por cesariana, pois não dilatei nada. Implorei para ver a minha filha... Não deixaram. Ficou o vazio, que só quem passa por isso sabe. Dois anos depois engravidei, mas com três meses perdi, segundo o médico, por ter muito líquido. Suspeitava de um bebê com má-formação. Não poderia mais ter filhos... Tive hemorragia, fiz curetagem. Um ano depois minha cunhada, casada com meu irmão, teve também um bebe anencéfalo. Era o fim... Mas e minha menina? Meu sonho?

No ano de 2004 não me preveni um dia só, tomei a pílula do dia seguinte e continuei evitando engravidar. Mas estava escrito... Estava grávida. Mistura de alegria, medo, pressão das pessoas, do médico... Mas com 5 meses a noticia: uma MENINA SAUDÁVEL!

Nossa fiquei boba, nem dormia de alegria, embora o medo ainda fosse meu companheiro. Mas minha Paulinha nasceu linda, saudável, com 3.850 kg, minha alegria.

Meu mano não quis mais ter outro bebê, o medo foi maior.

Tenho orgulho de ter sido mãe até o dia que Deus quis de minha Vitoria. Sonho com ela, queria ter sentido ela no meu colo... Mas hoje tenho minha Paula, minha princesa. Minha filha é linda, ela é a recompensa, prova de que o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.

E eu fui mãe até o momento que Deus permitiu com minha Vitoria Karoline.

Para superar o trauma fiz voluntariado em um hospital durante quatro anos. Depois fiz técnico em enfermagem, passei em um concurso e hoje trabalho em uma UBS. Tudo o que passei me fez uma pessoa mais humana. Fui criticada por ser insistente, mas Deus sempre esteve do meu lado, sempre me deu força.

Respeito a opinião das pessoas sobre o aborto, mas minha opinião é totalmente NÃO ao aborto. Deus dá a vida e só Ele tem o direito de tirar.
Agradeço pelo espaço... fiquei emocionada em dividir minha história!!
Nathia Pimenta
de Medicilândia, Pará

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Um anjo chamado Júlia Carla da Silva Diniz





Em janeiro de 2013, estava casada há 7 meses e já planejávamos ter um bebê em 2015. Porém como na vida nem sempre as coisas saem como planejamos, a gravidez veio antes do “meu tempo”... Com dois dias de atraso do ciclo não me aguentei, indo trabalhar comprei um teste de farmácia sem avisar ao meu marido e estava lá, duas listras rosas... Não quis acreditar, olhava várias vezes para ver se apagava, mas não... 

Eu estava grávida. Me perguntava: “Nossa, como assim? Só tinha ficado um mês sem tomar anticoncepcional, tanta gente tenta anos e anos para engravidar e comigo tão rápido?”. Eu não queria naquele momento, ia retornar com a pílula naquele mês, fiquei 11 anos tomando ininterruptamente, não imaginava que em um mês engravidaria, mas... aconteceu.

Liguei para o meu marido e o avisei, ele também não acreditou, falou que eu estava brincando, que estava zoando com ele. Aí mandei por e-mail a foto do teste. Ele quase surtou, mas deixamos pra conversar em casa. Quando cheguei, não tínhamos nem palavras, ele não sabia se me dava os parabéns, ou se perguntava o que íamos fazer. Ok, aceitamos os planos de Deus para nossa vida, pois acreditava que Ele tinha um propósito em tudo isso.

No outro dia, pra ter um papel comprovando, fiz o teste de laboratório que, é claro, deu positivo. Não queria contar pra ninguém até completar 3 meses, conforme o Pe. Marcelo Rossi sempre pediu. Mas meu marido não se conteve, contou para a família, contou para os amigos e até postou no Facebook. A partir daí, todo aquele sentimento de medo virou uma felicidade. Já curtia cada minuto da gravidez e estávamos na torcida pra vir a nossa menininha, a nossa Júlia, pois eu já tenho um menino e meu marido também tem um.

Sentia muito medo, um medo estranho que não tinha sentido na 1ª gravidez, talvez por ser nova demais. Fiz a ultra com 7 semanas e ouvi o coraçãozinho do meu bebê. Que sensação maravilhosa, indescritível. Fiquei muito feliz que estava tudo bem, até o máximo que era possível avaliar naquele tempo de gestação.

Passei muito mal no início do gravidez, tinha a sensação que estava doente. Meu corpo só pedia cama, eu enjoava de tudo, não podia sentir cheiro de comida, achava que aquilo nunca ia passar, nem conseguia curtir minha gravidez.

Fui a uma consulta de pré-natal e minha médica solicitou o ultrassom que mede a Transluscência Nucal. Como queria muuuuuuuuuuito saber o sexo, fui a um médico especialista em descobrir na TN, meu pai pagou particular só pra poder vermos. No dia 21/05 estávamos na clínica, eu, meu marido, meu pai e minha mãe, numa tensão só, doidos pra vermos meu bebê e descobrirmos o sexo.

Entramos na sala de exame e o médico começou a analisar tudo. Pela medida do bebê, eu estava com 11 semanas, ouvimos o coração (que lindoooo), e foi quando ele começou a mostrar, perninha, barriga, bracinhos, e quando chegou na cabeça ele falou: “Estão vendo aquela elevação acima do olho? Aquilo não é normal, tá?! Já deveria estar fechado e pode ser que não feche, temos que repetir o exame em 15 dias”.

Ah não! O que era aquilo? Eu não entendia nada, meu bebê tinha um problema, era isso? Comecei a tremer, a chorar, minha mãe pegou na minha mão e pediu pra eu ter calma. Como ter calma? Eu estava desesperada ,isso sim... O médico continuou e falou: “Vocês querem saber o sexo, né?! Qual a torcida?”, minha mãe respondeu que era pra menina e ele falou que era isso, uma menina!

Se eu fiquei feliz? Tenho que falar a verdade: não, não fiquei. Estava anestesiada, não queria acreditar no diagnóstico que ele passou. Mas não tinha o que fazer, tinha que aguardar para repetir o exame. Voltamos para casa e eu só sabia chorar, pedimos ajuda de amigos e parentes pra orarem pela Júlia, para o quadro se reverter. Busquei na internet o que aquilo significava, foi aí que conheci a acrania e anencefalia, nunca tinha ouvido falar antes. Pesquisei tudo, li todas as histórias, quase me especializei nesse assunto... 2 dias depois minha sogra pediu que fôssemos à clínica onde ela trabalhava para um outro médico repetir a ultra. Ele só falou que realmente havia uma anomalia e nos indicou um médico especialista em medicina fetal.

Uma semana depois (29/05/2013), estávamos lá, no consultório do Dr. Hebert pra repetir minha ultra. Enquanto tirava a roupa, só pedia a Deus pra fazer a sua vontade na vida da minha filha. Me tremia dos pés a cabeça. Deitei na cama, antes de iniciar o exame o Dr., após ver a última ultra, falou que estava bem nítido e que provavelmente esse era o diagnóstico. Iniciou o exame e estava lá, a cabecinha da minha filha aberta, nenhum osso havia se formado naquela região. Ela era tão perfeitinha, suas mãos estavam na cabeça, parecia que sabia que tinha algo errado, seus pezinhos eram lindos, coração a 167bpm, tudo certinho, exceto a região da cabeça. Eu só conseguia chorar, chorar e mais nada. Meu marido, minha mãe e minha sogra também choravam muito. Minha mãe me abraçou, não tinha palavras. O médico explicou que eu poderia abortar, que já era “legal” pela justiça ou que poderia continuar com a gravidez, que minha médica iria me assistir normalmente.

Sinceramente, naquela hora não conseguia pensar em nada. Só queria ir para casa, chorar para tentar refletir na minha decisão. E foi o que fiz. Após chorar muito com meu marido, ele me disse: “meu amor, seja qual for a sua decisão, eu vou estar ao seu lado”. Enquanto ele deu uma saída, eu fiquei sozinha, com meus pensamentos, e pedi a Deus pra me dar uma direção, porque do fundo do meu coração, eu não sabia o que fazer. Entrei na internet e fui pesquisar sobre o assunto, sobre casos como o da minha filha, sobre mães que passaram por isso. Foi aí que li a história da Vitória de Cristo e uma carta de uma mãe ao filho anencéfalo chamado Vitor... Nossa, a cada frase que lia me debulhava em lágrimas, e foi aí que vi que não teria coragem de abortar a minha tão sonhada filha, a minha menininha, a minha Júlia.

Pronto, decisão tomada, resolvi levar a gravidez até o final, até quando Deus quisesse. Porque só Ele tem o poder de dar a vida a alguém, então só Ele tem a permissão de tirar também. Além de tudo, eu já amava muito minha filha, cada pedacinho dela, um amor de mãe mesmo, amor verdadeiro, intenso, inexplicável. Muitos eram contra a minha decisão, diziam que eu estava prolongando um sofrimento, que eu estava carregando em meu ventre alguém que iria morrer logo depois que nascesse, ou até na própria gestação, mas minhas palavras eram sempre as mesmas: “não vou tirar o direito da minha filha de viver, o tempo que Deus quiser, e se acontecer na gestação, assim foi a vontade Dele, e não a minha”.

E assim eu segui, curtindo cada momento da minha gestação, tirando fotos, conversando com minha sapeca. Com exatamente 17 semanas ela começou a mexer, aí não parou mais, mexia todo dia e cada dia mais e mais... Own, eu não me continha de tanta felicidade. É claro que algumas pessoas da família falavam que o exame poderia estar errado, que ela era perfeita, mas eu sempre falava que independente de como era fisicamente, era minha filha, e eu a amava do mesmo jeito. Se Deus quisesse fazer o milagre, seria a coisa mais maravilhosa do mundo, mas se não fosse sua vontade, eu não iria me revoltar de forma alguma, pois Ele sabe de todas as coisas, nós não sabemos de nada.

Passou-se o tempo, eu fui sendo acompanhada direitinho pela minha médica, que foi um anjo, me deu muito apoio pra continuar com a gravidez. Com 22 semanas, 10 depois da última, fiz a ultrassonografia morfológica, a imagem já era bem diferente, o que inicialmente era caracterizado como acrania já tinha evoluído para anencefalia. Fora isso, minha filha era perfeita, todos os dedinhos, todos os órgãos, coração batendo forte, minha princesa, meu anjinho... mas pra mim e pra Deus, ela era TOTALMENTE perfeita.

Comecei a ter problema de pressão, baixava do nada, eu quase desmaiava na rua, indo trabalhar, mas seguia curtindo a gravidez, firme e forte, fazia carinho, dizia o quanto a amava, enfim, fiz de tudo pra ter uma gravidez normal. Passando as semanas, comecei a sentir muita falta de ar, dores na barriga, na coluna, e isso foi ficando mais difícil. Com 31 semanas descobri, através de uma ultra, que aqueles sintomas eram devido a uma polidramnia acentuada, pois a Júlia não conseguia deglutir o líquido amniótico. Minha médica pediu pra eu fazer o máximo de repouso, pois minha bolsa poderia romper a qualquer momento. 

Como tinha entrado de férias na semana anterior, o que eu precisava mesmo era repousar em casa. Ok, fui levando a gravidez, mas algo me dizia que eu não conseguiria chegar às 37 semanas no mínimo, estava ficando cada vez mais difícil, nem andar direito eu conseguia, dormir então, impossível... Com 35 semanas voltei à médica, ela mediu minha barriga (que segundo ela já estava de 10 meses...rs), me examinou e falou: “Jéssica, você já aguentou tudo que podia, sua filha já pode nascer, vou fazer o seu parto amanhã, já está te prejudicando”. Eu fiquei nervosa, me tremi, mas não tinha outra opção, estava inviável pra mim, eu me rastejava já, até falar era complicado, devido à intensa falta de ar.


Ok, marcamos tudo e no outro dia bem cedo eu e meu marido estávamos no hospital, nervosos, mas eu estava com a consciência tranquila... A médica chegou, me levou bem rápido pra sala de cirurgia, nem deu tempo dele me acompanhar porque ficou resolvendo a liberação da minha acomodação em um quarto. Levei o celular, queria tirar fotos dela, tinha muita esperança dela viver um bom tempo. Entrei na sala, aí já não conseguia conter a tensão, acho até que minha pressão aumentou. Eu tinha muita água, só ouvia o barulho do aspirador e a médica brincando com a outra que tinham que ser dois aspiradores. Pronto, vi o anestesista tirando fotos, mas não ouvi o choro da minha filha. Ela nasceu no dia 06/11/2013 às 6h51. Queria vê-la de qualquer jeito, o pediatra a pegou e foi limpá-la e enrolá-la para me mostrar, demorou alguns minutos, mas não sei ao certo quanto tempo. Ele veio com ela e falou: “aqui sua filha, você não queria ver?” Olhei pra ela, estava de olhos abertos, mas acho que já não estava mais viva, nem perguntei, só a beijei e disse que a amava. Ele a levou falando pra chamar o pai.

Saí da sala e fiquei aguardando do lado de fora, na maca. Sabia que meu marido estava preocupado comigo, pois eu contei que do meu primeiro filho minha pressão subiu muito na hora do parto, e ele sempre me dizia: “meu amor, eu estou me preparando psicologicamente pra perder nosso anjinho, mas não suportaria te perder.” Ouvi a enfermeira dizer que ele estava querendo me ver, e chamou o maqueiro pra me levar para o quarto. Quando saí da sala, ele estava me esperando e me beijou, perguntou se eu tinha visto nossa filha e eu respondi que sim. Quando cheguei ao quartom, havia algumas pessoas, todos já sabiam que ela não tinha resistido, e fui muito bem acolhida por todos.

Consegui com minha médica que me desse alta no dia seguinte para eu poder me despedir do meu anjinho, e ela disse que faria assim, que eu era uma fortaleza e que logo logo Deus estaria me abençoando com, de repente, dois lindos bebês. Até arrancou um sorriso de mim.

A despedida foi uma hora muito difícil. Olhar para aquele serzinho que eu gerei, carreguei em meu ventre, senti os chutes, fiz tanto carinho, cantei, amei tanto e vou amar pra sempre... Dei um beijo nela e pronto, ela ficou lá...

Minha filha, saiba que tudo que mamãe pôde fazer por você, mamãe fez. A dor é muito forte, mas sei que você não sofreu e isso pra mim é o que mais importa. Jamais suportaria carregar em mim uma culpa de não ter deixado você cumprir sua missão aqui na Terra, mesmo que por poucos minutos. Te amarei eternamente, meu anjo, minha Júlia!

Jéssica Carla Conceição da Silva
São Gonçalo, RJ
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